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O que é gripe K e por que devemos tomar a vacina Influenza todo ano; especialista do Butantan explica

Variante da influenza A tem gerado aumento de casos no mundo; imunização atualizada anualmente protege contra formas graves da doença e hospitalização


Publicado em: 04/03/2026

Reportagem: Aline Tavares
Fotos: José Felipe Batista e Shutterstock
 

O aumento global no número de casos de influenza sazonal (que predomina nos meses de inverno) tem chamado a atenção de autoridades sanitárias nos últimos meses. Identificada como gripe K, a variante por trás desse crescimento é um subclado do vírus influenza A (H3N2) – portanto, não se trata de uma nova doença, mas de uma variação genética de um patógeno já conhecido. Desde meados de 2025, ela vem circulando em países da Europa, Ásia e América do Norte, e foi identificada no Brasil no final do ano passado.

Por ter apresentado um aumento repentino a partir de agosto de 2025, a variante da gripe K não faz parte da composição das vacinas de gripe que serão oferecidas à população no inverno de 2026. 

Isso se deve à data na qual os imunizantes começam a ser produzidos. Todos os anos, a vacina da gripe é atualizada com as cepas do vírus influenza mais circulantes no período anterior, conforme o acompanhamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2025, a instituição divulgou a composição das vacinas trivalentes e tetravalentes em meados de setembro – quando a gripe K ainda não tinha se consolidado como um ponto de atenção.

Ainda assim, as vacinas de influenza que estão sendo aplicadas atualmente, tanto na rede pública quanto na rede privada, contribuem, sim, para proteger contra a variante K. Em dezembro, a OMS emitiu um alerta sobre a gripe K afirmando que mesmo os imunizantes que não puderam ser atualizados com a nova variante continuam fornecendo proteção contra formas graves da doença e hospitalização.
 

Vacina da gripe é atualizada todos os anos e protege de casos graves (Foto: José Felipe Batista)


Vale lembrar que a versão de 2026 da vacina da gripe do Instituto Butantan, que é fornecida gratuitamente à população por meio do Programa Nacional de Imunizações, inclui uma cepa de influenza A (H3N2), de onde veio a variante K, além de uma cepa de influenza A (H1N1) e de influenza B (linhagem Victoria).

Segundo o pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan, Paulo Lee Ho, tomar a vacina da gripe todos os anos é fundamental para manter a imunidade e prevenir casos graves, especialmente em crianças pequenas e idosos, que são os grupos mais suscetíveis a complicações.

“É extremamente importante que as pessoas tomem a vacina Influenza atualizada durante a campanha de vacinação, que ocorre antes do período de maior circulação do vírus. As evidências mostram que pessoas vacinadas que se infectaram com a cepa K ficaram protegidas contra os sintomas graves da doença”, afirma.

O especialista explica, ainda, que é comum haver aumento de infecções diante da circulação de uma nova cepa, e que uma alta cobertura vacinal é a melhor forma de reduzir transmissões e evitar que a variante se espalhe pelo país.
 

Gripe K é uma variante genética de um vírus já conhecido, o influenza A H3N2 (Foto: Shutterstock)

 

Como surgiu a gripe K

A variante K (também chamada de J.2.4.1) é originada do subclado J.2 do H3N2. Ela possui sete mutações em seu material genético e, por esse motivo, tornou-se capaz de “escapar” da resposta imune, ocasionando um maior número de infecções. 

As mutações dos vírus influenza podem acontecer de duas maneiras: quando duas cepas infectam o mesmo hospedeiro e o material genético dos dois vírus “se mistura”, ou de forma espontânea, por meio da evolução natural do patógeno – este último é o caso da variante K. “A cepa K foi selecionada naturalmente; ela foi ‘escapando’ do sistema imune com a aquisição de cada uma dessas mutações”, diz Paulo Lee Ho.

A OMS destaca que, embora o subclado K represente “uma evolução notável” do vírus H3N2, os dados epidemiológicos não indicam que ele provoque um aumento na gravidade da doença.

 

Há risco de pandemia?

O cientista do Butantan esclarece que as cepas com potencial pandêmico costumam ser geradas por meio de rearranjos do material genético entre diferentes patógenos durante uma coinfecção – o que não é o caso do subclado K, que evoluiu naturalmente.

“A literatura mostra que, para chegar a uma cepa pandêmica, com elevado potencial de transmissão, é necessário haver mudanças genéticas muito mais profundas”, diz Paulo.

A pandemia de H1N1 que ocorreu em 2009, por exemplo, foi fruto de múltiplos eventos de rearranjo genético, que reuniram segmentos genômicos do vírus da influenza suína H1N1 clássico, do vírus da influenza sazonal humana H3N2, do vírus da influenza aviária norte-americana e de um vírus da influenza suína de origem aviária eurasiática, segundo artigo publicado na Nature.

 

frasco da vacina influenza do butantan

A vacina do Butantan é fornecida gratuitamente à população por meio do SUS (Foto: José Felipe Batista)


Por que os vírus influenza sofrem tantas mutações?

A frequência de modificações nos vírus da gripe é resultado da própria biologia do patógeno. Os influenza são vírus de RNA capazes de duplicar o seu material genético, mas não de corrigi-lo. 

“Isso significa que, quando o vírus se replica, se um nucleotídeo é posicionado da forma errada, diferente da fita de RNA original, ele não é corrigido, gerando assim uma mutação no material genético”, resume Paulo Lee Ho.


Vacina da gripe agora está disponível o ano todo

Em abril de 2025, a vacina Influenza foi inserida no Calendário Nacional de Vacinação de rotina para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas com 60 anos ou mais. Assim, o imunizante está disponível ao longo de todo o ano para esses públicos nos postos de saúde, não apenas durante a campanha sazonal.

Os demais grupos prioritários, como profissionais da saúde, professores, integrantes das forças de segurança, população privada de liberdade e pessoas com doenças crônicas ou deficiências, continuarão recebendo a vacina anualmente durante as campanhas sazonais e em estratégias especiais. 

A Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe de 2026 deve ocorrer entre os meses de março e abril.