Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Centro de Memória e Comunicação Butantan
Esta matéria contou com a contribuição dos cientistas e profissionais do Instituto Butantan Suzana Cesar Gouveia Fernandes, Paulo Nico Monteiro e Erika Hingst-Zaher. Agradecimento especial ao Centro de Memória do Instituto Butantan
No Especial 125 anos do Instituto Butantan, viaje pelas histórias que fazem dessa instituição centenária uma referência global em pesquisa, produção e educação científica.
O Instituto Butantan atinge o marco de 125 anos de existência em 2026 como um instituto de pesquisa diferenciado não só pelas suas produções científicas e culturais, mas também por seu vasto trabalho de divulgação científica. Fundado para combater crises sanitárias com a fabricação de soros contra a peste bubônica, no final do século 19, o Instituto nunca dissociou a produção de antivenenos e vacinas da missão de educar a população.
O que começou em 1901 como uma necessidade de ensinar práticas de higiene para evitar a “peste”; convencer fazendeiros a notificar acidentes com cobras; e os médicos sobre a eficácia dos soros, evoluiu para um complexo de laboratórios e museus que desafiam os modelos tradicionais de comunicação pública da ciência.
“Existiu desde o início a preocupação de que ciência desenvolvida naquele momento chegasse à população de uma forma objetiva para que houvesse aderência aos vários projetos que estavam sendo implementados enquanto o Butantan se estabelecia como instituto público”, afirma a historiadora e diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Instituto, Suzana Cesar Gouveia Fernandes.
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Instituto Butantan no início do século 20
Atualmente, o campus do Butantan é reconhecido como um "Parque da Ciência", um museu a céu aberto onde a arquitetura ajuda a contar a história da saúde no Brasil. O parque oferece uma dinâmica fluida onde, com um único ingresso, o visitante acessa os quatro museus – Biológico, Histórico, de Microbiologia e da Vacina –, além de trilhas no Horto, um boulevard e o imponente edifício Vital Brazil, onde há uma biblioteca histórica e uma sala de leitura infantojuvenil.
Além disso, é sede de diversos laboratórios, que integram o Centro de Desenvolvimento Científico (CDC) e o Centro de Desenvolvimento e Inovação do Butantan (CDI), onde os cientistas estudam o desenvolvimento de novos fármacos e vacinas, entre outras áreas do conhecimento. Nesses locais, a divulgação científica é parte integrante do trabalho cotidiano de pesquisa.
O Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA), por exemplo, promove ações em escolas e abre as portas para crianças e adolescentes conheceram a Plataforma Zebrafish, centro de pesquisa e biotério focado no peixe também conhecido como paulistinha (Danio rerio). Já o Laboratório de Ecologia e Evolução (LEEv), que teve sua nova sede inaugurada em 2024, oferece um passeio a céu aberto onde o visitante pode ver como a ciência está sendo feita em tempo real, agendar visitas guiadas e falar diretamente com os pesquisadores.
“O Parque da Ciência representa a continuidade da responsabilidade social do Instituto Butantan com relação à ciência que é produzida aqui”, resume Suzana.
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Em 1901, o sanitarista Vital Brasil (1865-1950) passou a dirigir o Instituto Serumtherápico, que em 1925 se tornaria o Instituto Butantan. Na época, a organização era incumbida de fazer soros contra a peste bubônica e, mais tarde, contra o envenenamento por animais peçonhentos.
Vital realizava demonstrações públicas de inoculação de veneno de serpente em pombos, salvando-os com o soro para provar sua eficácia. Essa preocupação em "ensinar o povo" manifestava-se na histórica estratégia de permuta: o Instituto fornecia caixas e laços para que pessoas do interior enviassem serpentes e recebessem ampolas de soro em troca.
“Além de ter que convencer as pessoas, o Butantan também assumiu na época o papel de prestador de serviço à população, tendo um ambulatório que atendia o público e a escola rural”, afirma o diretor do LEEv, Paulo Nico Monteiro, estudioso da história do Butantan.
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Instalação do Instituto Serumtherápico do Estado de São Paulo que se tornaria anos depois o Instituto Butantan
Essa mentalidade de "portas abertas" gerou os primeiros espaços expositivos e tornou a divulgação científica uma estratégia de sobrevivência institucional.
A primeira exposição do Instituto ocorreu em 1912, na sala nº 2 do pavimento superior do Edifício Central (hoje Edifício Vital Brazil, cartão postal do Butantan), com um acervo de 119 espécies de cobras nacionais e estrangeiras conservadas em álcool. O objetivo da mostra era abordar a história natural das serpentes.
A exposição estava sob responsabilidade do herpetólogo e pesquisador João Florêncio Gomes (1886-1919). Ele era encarregado da extração do veneno para a produção dos soros antipeçonhentos e antidisentérico, e testava um novo soro antipneumocócico. Depois que João Florêncio faleceu precocemente em 1919 devido à gripe pneumônica, a sala nº 2 foi batizada com seu nome.
No ano seguinte, 1913, o Butantan sediou sua primeira conferência pública voltada à educação sanitária, novamente no imponente Edifício Central. O seminário foi o primeiro de uma série de encontros científicos sobre herpetologia, que deram início aos programas de ação educativa do Butantan.
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Serpentário localizado ao lado do Prédio Central, depois nomeado Edifício Vital Brazil em 1914
Com a inauguração do Serpentário – que mantinha animais para a produção de soros e para receber o público - e a abertura ao público do Edifício Vital Brazil, em 1914, a sala de exposições recebeu diferentes modelos animais em vidros com álcool e taxidermizados (empalhados) no espaço que ficou conhecido como Museu do Instituto Butantan. Entre eles estavam 124 crânios de 57 espécies de ofídios e uma curiosa coleção de hemipênis (órgão reprodutor de serpentes), selecionados para estudos sobre reprodução. A coleção permaneceu exposta até 1924.
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Primeiras exposições contavam com crânios naturais de serpentes e exemplares maiores feitos de cera para permitir ao público enxergar detalhes anatômicos das espécies
“O Museu Biológico se tornou um espaço dedicado, com curadoria, para algo que antes acontecia de maneira mais dispersa pelo campus. Ao longo das décadas, ele foi se transformando, acompanhando as mudanças da museologia e da própria relação da sociedade com a biodiversidade”, afirma a pesquisadora científica e diretora do Museu Biológico, Erika Hingst-Zaher.
O material das exposições que formaram o embrião do Museu Biológico foi herdado do acervo do Instituto Bacteriológico de São Paulo, onde Vital Brazil trabalhou, antes de fundar o Instituto Serumtherapico, como auxiliar do médico e pesquisador Adolfo Lutz (1855-1940), no combate à peste bubônica.
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À medida que o acervo crescia, a exposição era transferida para sedes provisórias. A exposição chegou a ser instalada no Prédio Novo, edifício construído a partir dos anos 1930 no estilo art déco para abrigar laboratórios; e na antiga residência do ex-diretor Afrânio do Amaral (1894-1982), hoje nomeada Casa Afrânio. A coleção constituía o Museu de História Natural do Butantan.
Em 1966, o Museu Biológico foi transferido para o endereço que ocupa até hoje. O espaço escolhido para abrigá-lo era uma antiga cocheira de cavalos - embora o local seja o mesmo, as instalações eram bem diferentes.
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Público podia observar peles curtidas e parafinadas, além de esqueletos de cobras, conforme museologia típica dos anos de 1930 e 1940
Foi necessária uma reforma para que o edifício pudesse abrigar os vários recipientes com serpentes, aranhas e escorpiões em formol; os esqueletos de cobras pendurados nas paredes; a ala de animais taxidermizados, com crânios naturais de cobras, e os exemplares feitos de cera ou isopor em tamanhos maiores; bem como as serpentes com peles parafinadas e curtidas. Tudo para que o público pudesse ver em detalhes as estruturas dos animais.
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Aranhas e escorpiõem em álcool também faziam parte do acervo do museu
O museu chamava tanta atenção que atraía até 200 mil visitantes por ano na década de 1960. O público era formado principalmente por turmas escolares e turistas de todo o Brasil e do exterior, que não abriam mão de levar para casa, como lembrança, peças de peles de cobra parafinadas, serpentes no formol e crânios de serpentes, então vendidas aos visitantes. Em 1968, o museu passou a contar com um pavilhão de exposições maior e um anfiteatro para 200 pessoas.
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Os museus e o serpentário atraia multidões todos os anos; na década de 1960 o Instituto Butantan chegou a receber 200 mil pessoas anualmente
Neste contexto, o Instituto Butantan se consolidou no imaginário popular como a "Fazenda de Cobras", atraindo pessoas interessadas em observar as milhares de serpentes.
Documentários de épocas anteriores reforçavam essa aura, como o curta belga “La mort qui guette (“A morte que espreita”), de 1952, com trilha sonora dramática típica da época, além do título “Vital Brazil e o Butantan”, que mostra a preparação do soro antiofídico etapa por etapa a partir do manejo de serpentes.
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Estudantes observam extração de veneno no Instituto Butantan em 1973
Embora houvesse um apelo midiático na época, a antiga exposição era de cunho médico e sanitário e parte da comunicação em saúde pública coerente com o que se fazia na época.
“O objetivo era mostrar ao visitante por que os acidentes com animais peçonhentos são graves, por que é importante a prevenção, e por que o trabalho do Butantan na produção de soros é essencial. Não era uma exposição feita para assustar, era uma exposição feita para educar, dentro dos parâmetros museológicos da época”, esclarece a diretora do Museu Biológico.
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Crânios de serpente faziam parte de material didático oferecido para escolas visitantes
Erika ressalta que o Butantan sempre foi na contramão do tom sensacionalista propagado por parte da imprensa de outrora.
“O fato de o público sentir fascínio, curiosidade, ou mesmo medo diante de serpentes e aranhas não significa que a instituição estava promovendo um espetáculo de horror. Fascínio e medo são respostas humanas universais a esses animais, e o papel de uma instituição de divulgação científica é justamente acolher essas emoções e transformá-las em conhecimento, como o Butantan sempre fez”, descreve.
A partir da década de 1980, sob a gestão do pesquisador e museólogo Pedro Federsoni Júnior, o espaço recebeu o nome de Museu de Animais Peçonhentos e Saúde Pública e começou a focar em educação ambiental, com a exposição de animais vivos e a manutenção de serpentes como a jararaca-ilhoa.
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Contenção de serpente peçonhenta do gênero Bothrops e extração de seu veneno
Temas ambientais eram apresentados com linguagem infantojuvenil e focados no público escolar, que tinha acesso a uma programação especial às quartas e sextas-feiras, sempre com entrada gratuita.
O museu fornecia material didático às escolas visitantes, com exemplares de animais em formol, no sentido de auxiliar os alunos na execução de trabalhos e estimular a implantação de pequenos museus escolares. Uma das exposições da época foi intitulada "Na Natureza não existem Vilões", representando a mudança de paradigma.
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Exposição "Na Natureza não existem Vilões" expõe reviravolta do Museu Biológico, que passa a ser mais focado em questões ambientais
“O Museu passou a apresentar os animais não como ameaças, mas como organismos com papel ecológico, em ambientes que simulam seus habitats naturais. É uma mudança que reflete a evolução da biologia da conservação e da própria museologia. O fio condutor sempre foi o mesmo: usar o fascínio que as pessoas têm por esses animais como porta de entrada para o conhecimento científico”, afirma Erika Hingst-Zaher.
Somente a partir de 1991, foi oficializado o nome Museu Biológico. Com o passar dos anos, o Museu evoluiu de exposições onde os animais estavam visíveis, mas pouco contextualizados, para uma museologia contemporânea onde cada animal faz parte de uma história sobre biodiversidade, saúde e conservação.
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Foi também em 1981, no 80º aniversário da instituição, que a criação do Museu Histórico trouxe uma nova camada para a divulgação da ciência feita no Instituto, só que desta vez alinhada a uma estratégia de marca. Naquele momento, o Butantan sofria questionamentos sobre a qualidade de sua produção de soro, e sabia que era necessário reafirmar sua história, mostrando o quanto havia avançado para trazer os soros à população.
"Era importante através da história mostrar a trajetória de excelência da instituição e que ela deveria se manter. Então, o museu foi construído sobre os alicerces do primeiro laboratório de Vital Brazil, uma antiga sala de ordenha adaptada”, detalha Suzana Fernandes.
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Museu Histórico conta trajetória do Instituto Butantan refazendo instalações do primeiro laboratório de Vital Brazil
Durante o restauro, encontrou-se o piso original e uma parede de barro, que hoje integram a exposição "Serum ou Soro", uma mostra reformulada para ser menos analógica do que a versão original e mais atrativa ao público moderno.
Ainda com o objetivo de recuperar e valorizar a memória centenária do Butantan, em 2010, a criação do Centro de Memória permitiu a organização de uma massa documental que estava dispersa desde os anos de 1970. O acervo inclui desde cadernos de pesquisa até as cartas que Vital Brazil trocava com cientistas estrangeiros, e pode ser acessado tanto online quanto presencialmente.
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Centro de Memória é criado para organizar documentação histórica do Instituto; acima bilhete deixado por Rui Barbosa durante sua visita ao Butantan em 1914
No mesmo ano, o Butantan incorporou o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER), localizado no prédio do antigo Desinfectório Central de São Paulo, na região central da capital paulista. Esta união permitiu à instituição gerir um acervo vasto sobre a história do sanitarismo paulista, unindo as trajetórias de Vital Brasil, Emílio Ribas e Adolfo Lutz.
Atualmente, a fim de salvaguardar a memória do Butantan e da saúde pública do estado de São Paulo, Centro de Memória e MUSPER trabalham juntos no lançamento de guias e inventários, e na preservação e divulgação de documentos.
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Sede do antigo Desinfectório Central do Estado de São Paulo no início do século 20, que anos depois se tornaria o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER)
É comum que as equipes que atuam nos museus e laboratórios recebam famílias onde avôs e netos compartilham lembranças de visitas escolares. Essa ligação com a comunidade remonta à antiga Escola Rural (hoje Escola Estadual Alberto Torres), que funcionava dentro da Fazenda Butantan e recebia crianças que vinham a pé de bairros vizinhos para estudar.
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O início do século 21 marcou uma mudança na linguagem expositiva do Instituto Butantan. Em 2002, foi inaugurado o Museu de Microbiologia, idealizado pelo professor Isaías Raw, ex-diretor do Instituto Butantan. Interativo, o museu traz perguntas, respostas e reflexões que o visitante vai tentando solucionar por meio de jogos e com o uso de microscópios.
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Museu de Microbiologia foi aberto em 2002 e em 2023 foi rebatizado em homenagem ao seu idealizador, o pesquisador, professor e ex-diretor do Instituto Butantan, Isaias Raw
A atração rompeu com a centralidade na doença, característica de boa parte da divulgação científica feita até então, e focou na experimentação, permitindo que jovens utilizassem microscópios e vissem modelos tridimensionais de vírus e bactérias. O prédio, um antigo restaurante reformado pelo arquiteto Márcio Kogan, tornou-se um marco de modernidade e leveza no parque.

Público observa instalações do Museu de Microbiologia durante visita guiada
A inauguração foi uma virada: era a primeira vez na história do Instituto que um museu tinha um foco claro e um público-alvo definido.
“O Museu de Microbiologia tinha como objetivo mostrar como a ciência era dinâmica, importante nas nossas vidas e o como ela está presente em tudo o que a gente faz. A ideia de ver modelos de vírus e bactérias através de microscópios era mostrar para o jovem como a ciência pode ser legal”, esclarece Suzana.

Criança deixa recado em caderno de visitas do Museu de Microbiologia
Em março de 2023, o Butantan abriu ao público sua instalação mais tecnológica: o Museu da Vacina, desenvolvido durante a pandemia de Covid-19 e instalado na casa que foi a primeira sede da Fazenda Butantan.
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Museu da Vacina conta com instalações repletas de recursos digitais
Ele utiliza recursos digitais e interativos para explicar o funcionamento do sistema imunológico e a importância histórica da imunização, equilibrando instalações digitais com uma linha do tempo analógica.
A atração oferece jogos que desafiam o visitante a resolver problemas de saúde pública, tornando-se uma ferramenta vital contra o negacionismo.
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Interatividade é outra característica do Museu da Vacina, inaugurado em 2023
“Este museu vem com a ideia de abordar que o Butantan tem uma longa história também com vacinas, não somente com soro. É importante mostrar quanto o Instituto colaborou e colabora com a saúde pública no Brasil, e os museus têm essa responsabilidade”, afirma a diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural.
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Outra ação de divulgação científica que ganhou o coração da turma mais jovem é o "Mão na Cobra", atividade na qual crianças e adultos são convidados a tocar em serpentes não peçonhentas, conforme as diretrizes do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA).
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Visitante durante atividade "Mão na Cobra", no Parque da Ciência Butantan
Com raízes que remetem às primeiras exibições públicas de Vital Brazil, a atividade então denominada "Vivência com Serpentes", foi idealizada pelo pesquisador científico Otávio Marques e pela bióloga Myriam Calleffo, e começou a ser realizada em 2007 pelas equipes do Laboratório de Herpetologia e da recepção de animais do Instituto.
Em 2011, a atividade passou a ser realizada pelo LEEv, então recém-criado, com colaboração da equipe do Museu Biológico. A partir de 2024, a equipe do LEEv passou a conduzir exclusivamente a atividade.
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Menina segura uma serpente durante atividade "Mão na Cobra"
“O toque no animal vivo, mediado por um profissional, é um forte preditor de aprendizagem significativa. Ao tocar a serpente, o visitante rompe a barreira do medo e torna-se mais receptivo a informações sobre preservação de biomas e tráfico de animais”, afirma Paulo Nico.
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Visitante interage com quelônio em instalação no Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan
O LEEv utiliza tanto animais nativos quanto exóticos, como corn snakes (cobras-do-milho) apreendidas, para educar sobre as consequências do abandono de pets. Em 2026, a atividade foi ampliada para incluir outros animais, como jabutis para crianças menores, sempre com o objetivo de "engajar" o sujeito e transformar a visita em um momento de pertencimento.
Para além do “Mão na Cobra”, o LEEv é um laboratório aberto à visitação que foca na conservação das espécies de répteis nativos ameaçados de extinção e no estudo do animal em si.
A "espécie bandeira" desse projeto é a jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), criticamente ameaçada e exclusiva da Ilha da Queimada Grande, no litoral paulista. O LEEv desenvolve, dentre outros projetos de pesquisa, um programa de reprodução assistida das espécies ameaçadas, e a criação de um biobanco (backup genético) das espécies estudadas.
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Apesar das ações multifatoriais de divulgação científica realizadas no Instituto Butantan, ainda há desafios a serem superados neste sentido.
Um dos principais é a superação do "modelo do déficit". Esse modelo assume que o público é um receptáculo vazio de conhecimento e que o especialista deve apenas depositar informações para corrigir a “ignorância” do leigo. Essa é uma barreira que o Butantan tenta romper, ao entender a necessidade de adotar modelos dialógicos, que respeitem o conhecimento que o visitante já traz de casa.

Criança avalia textura de pele de serpente durante atividade de férias ocorrida no Parque da Ciência Butantan
"É o especialista falando para o leigo: eu sei, você não sabe, estou aqui para falar que você está errado. Isso não funciona. Os dados empíricos nos dizem que modelos mais dialógicos são muito mais eficientes de fato para comunicar a ciência", diz Paulo Nico.
A comunicação científica eficiente não é feita apenas por cientistas, mas por comunicadores que compreendam as tensões do ambiente acadêmico e as necessidades do público leigo.

Visitantes observam serpente durante atividade da programação de Férias no Butantan
Por isso, uma das propostas de pesquisa no campo educacional do LEEv é desenvolver estratégias de eye tracking (rastreamento ocular), que utilizam equipamentos para investigar e analisar a movimentação do olhar do público no momento da visitação. O objetivo central é entender o que o público procura, a partir de perspectiva educacional e pedagógica, e aprimorar cada vez mais suas ações de divulgação científica.
O texto contou com informações enviadas pela bióloga e idealizadora do Reptário e do Biotério Semiextensivo de Quelônios e Lagartos do LEEv Myriam Elizabeth Velloso Calleffo, pela supervisora cultural do Museu Biológico, Adriana Chagas, pelo agente de apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica do Centro de Memória do Butantan, Nelson Roberto Rudiger, e pela assistente de documentação do Centro de Memória do Butantan, Mariana Soares Popperl.
Referências:
Adolpho Lutz
Centro de Memória Butantan
Encontro Nacional sobre Coleções Biológicas e suas Interfaces
Homenagem Dr. João Florêncio Gomes
“La mort qui guette (“A morte que espreita”)
Linha do Tempo Butantan
LEI N. 2.121, DE 30 DE DEZEMBRO DE 1925
Museu de Saúde Pública Emílio Ribas (MUSPER)
No aniversário de Vital Brazil, conheça a história do médico sanitarista e cientista que fundou o Butantan
Relatório anual de gestão - 1922



