Reportagem: Aline Tavares
Fotos: José Felipe Batista
Os acidentes com escorpiões são cercados de desinformação e crenças populares que acabam atrapalhando o tratamento da picada, além de aumentarem a disseminação desses aracnídeos pela cidade. Em 2024, os escorpiões foram os responsáveis pela maioria dos acidentes com animais peçonhentos no Brasil, causando 198 mil dos 337 mil registros, segundo o Ministério da Saúde. Só no estado de São Paulo, foram notificados 42 mil acidentes do tipo no período.
Essa predominância é consequência da adaptação dos escorpiões ao ambiente urbano, onde encontram ampla disponibilidade de alimento (como as baratas), água e abrigo. Eles se escondem em locais escuros e costumam entrar nas residências por meio de ralos, calhas, tubulações e caixas de fiação sem vedação. Nem os andares mais altos dos prédios estão totalmente livres do animal, já que ele consegue escalar superfícies irregulares.
Como os encontros entre esses aracnídeos e os humanos estão cada vez mais frequentes, é importante saber o que realmente ajuda a evitar o aparecimento de escorpiões dentro de casa, como lidar ao se deparar com o animal e como prevenir acidentes e complicações em caso de envenenamento.
O aracnólogo e tecnologista do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan, Paulo Goldoni, explica os principais mitos relacionados a escorpiões.

Produtos comuns do dia a dia, como vinagre e água sanitária, ou mesmo inseticidas e pesticidas, não são recomendados para controle de escorpiões. Pelo contrário: o uso desenfreado de produtos químicos pode fazer com que o animal deixe seu esconderijo e se espalhe ainda mais para outros lugares, aumentando o risco de acidentes, além de prejudicar a saúde humana e o meio ambiente.
Mesmo que matem o aracnídeo, nenhum produto químico possui conduta de aplicação comprovada cientificamente que considere as variações do ambiente (como temperatura e umidade), uma vez que seus testes foram feitos apenas em ambientes laboratoriais controlados.
“Existe esse viés de confirmação em que a pessoa acredita que se ela usou o produto uma vez e o animal morreu, o produto é eficaz. Mas enquanto ela pode ter eliminado um escorpião, por exemplo, outros exemplares fugiram e se disseminaram nesse processo. Por isso, não recomendamos a aplicação de produtos químicos desenfreadamente”, afirma Paulo Goldoni.
A prática também gera estresse no animal, o que é uma das hipóteses que pode favorecer a partenogênese – quando a fêmea se reproduz sozinha, sem a fecundação de espermatozoides. O escorpião vive, em média, de 3 a 4 anos, e tem pelo menos quatro reproduções por ano. “Cada vez que eles se reproduzem, nascem pelo menos 20 filhotes: é um aracnídeo que aumenta rapidamente sua população”, explica.
Além disso, o escorpião tem a capacidade de fechar seus estigmas respiratórios (orifícios por onde o animal respira), o que também pode ajudá-lo a sobreviver diante dos pesticidas. Ainda não foi descoberto pela ciência por quanto tempo o aracnídeo consegue “segurar” a respiração.
Para evitar essa visita indesejada em casa, a principal recomendação é não acumular materiais de construção, que podem servir de abrigo, e nem lixo, que atrai as baratas (um alimento comum dos escorpiões). Também é indicado usar telas em ralos do chão, pias e tanques, e não afastar seus predadores naturais (saruês, aves, anfíbios e mamíferos).
De acordo com Paulo Goldoni, um mito muito disseminado em todas as regiões do país é o uso da chamada “garrafada”, que consiste em manter o animal morto em um recipiente com álcool e usar essa solução para “tratar” a picada. Além de não ter eficácia alguma contra o envenenamento, a prática pode aumentar o risco de complicações e infecções.
O mesmo vale para outros costumes, como fazer torniquete ou tentar “sugar” o veneno. Na dúvida, o especialista reforça: se não é indicado para picada de serpente, também não vai funcionar para picada de escorpião – e nem de nenhum outro animal peçonhento. Em todos os casos, a recomendação é lavar o local da picada com água e sabão e procurar o serviço médico mais próximo imediatamente. Se possível, leve o animal que causou o acidente ou fotografe-o. Nunca se automedique.
No Manual de Controle de Escorpiões do Ministério da Saúde, as bandejas de ovos são indicadas exclusivamente para o transporte de escorpiões vivos dentro de caixas de plástico, o que deve ser feito por profissionais treinados. As bandejas ajudam a evitar o choque entre os animais e aumentam a capacidade do recipiente, além de facilitar a visualização dos escorpiões e reduzir o risco de acidentes durante o manuseio.
A solução é utilizada no biotério de escorpiões do Instituto Butantan, onde são abrigados os exemplares utilizados na extração de veneno e produção do soro antiescorpiônico. “É um material leve, barato, que facilita a manipulação e conservação do animal. Mas é importante reforçar que isso não deve ser usado como ‘armadilha caseira’ pela população”, esclarece Paulo.

Nem alecrim, nem arruda, nem lavanda e nem citronela: não há comprovação científica que determinadas plantas sejam capazes de “repelir” escorpiões. Esses aracnídeos vivem em todos os biomas, de desertos a florestas úmidas, e não existe nenhum repelente natural contra eles.
Até o momento, a única relação cientificamente comprovada entre escorpiões e plantas envolve a espécie Tityus neglectus, que não é considerada de importância médica e não provoca acidentes graves em humanos. Essa espécie, distribuída pela região Nordeste do Brasil, é conhecida por se abrigar em bromélias, onde se aproveita da água acumulada e se alimenta de pequenos insetos.
As aves são predadores naturais do escorpião, principalmente as galinhas, mas isso não significa que criá-las seja um método eficaz de controle. A probabilidade das espécies se encontrarem é baixa, já que a ave tem hábitos diurnos, enquanto o aracnídeo tem hábitos noturnos. Vale lembrar, ainda, que é preciso ter autorização das autoridades de controle ambiental para criar galinhas na zona urbana.
Além de não serem efetivas no combate ao aracnídeo, a criação de galinhas pode causar outros problemas. As fezes dessas aves são reservatório para o mosquito-palha, transmissor da leishmaniose – doença parasitária que, se não tratada, pode levar a óbito em até 90% dos casos, segundo o Ministério da Saúde.
Saiba o que fazer para prevenir o aparecimento de escorpiões em casa
Em primeiro lugar, jamais tente pegar o escorpião com as mãos, mesmo que estiver usando luvas, pois o risco de acidente é alto. A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo recomenda que a captura seja feita se a pessoa se sentir segura; caso contrário, o ideal é entrar em contato com a prefeitura para comunicar o aparecimento do animal e solicitar assistência.
Antes de tentar capturar um escorpião, é necessário vestir equipamentos de segurança, como luvas de vaqueta ou raspa de couro, sapatos fechados de couro ou de outros materiais resistentes e calças compridas. Após colocar a proteção, utilize um graveto ou pinça longa para empurrar o animal para dentro de um frasco plástico fundo, de superfície lisa e com tampa perfurada. Depois, leve-o ao Centro de Controle de Zoonoses do seu município.
Caso não consiga coletar o escorpião, utilize um objeto plano, rígido e longo para golpeá-lo. Não tente usar produtos químicos para matar o escorpião. Após eliminar o aracnídeo, não o descarte no lixo: use uma pinça longa para colocá-lo dentro de um pote com álcool etílico (70%) e contate o Centro de Controle de Zoonoses ou a prefeitura do município. Mesmo morto, o animal pode ser encaminhado para instituições de pesquisa para estudo.
“O ideal a fazer é sempre gerar informação. O registro é importante para aprimorar os dados epidemiológicos, conhecer melhor a distribuição do animal e identificar as regiões de maior risco. Isso ajuda a formular melhores estratégias de combate e prevenção de acidentes”, aponta Paulo Goldoni.
Referências:
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