Reportagem: Aline Tavares
Fotos: Comunicação Butantan
Uma pesquisa com colaboração do Instituto Butantan revisou a dieta das caninanas (gênero Spilotes), serpentes não peçonhentas nativas da América Latina, e relatou pela primeira vez as cobras se alimentando de filhotes de gavião-bombachinha (Harpagus diodon) e de passarinhos neinei ou bem-te-vi-do-bico-largo (Megarynchus pitangua), além do comportamento antipredatório dessas espécies de aves.
O estudo, conduzido em parceria com o Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e com instituições da Colômbia e Honduras, foi publicado na revista North-Western Journal of Zoology e contou com participação da pesquisadora Silvia Regina Travaglia Cardoso e do tecnologista em manejo animal Marcelo Bellini Lucas, ambos do Museu Biológico do Instituto Butantan.
Os dois casos inéditos foram observados na natureza. Pesquisadores brasileiros registraram a Spilotes sulphureus – também conhecida como cobra papa-pinto-de-papo-amarelo – se alimentando de um filhote de gavião na Reserva Biológica de Poço das Antas, no Rio de Janeiro. Já cientistas de Honduras observaram uma Spilotes pullatus predando dois filhotes de neinei na comunidade de Vallecito, no município de Limón. Penduradas em galhos de árvore, as serpentes predaram as aves diretamente nos ninhos.
Também foi a primeira vez que a dieta das Spilotes foi revisada em toda a área de distribuição do animal na América Latina. No total, foram identificados na literatura 35 registros de predação (23 para S. pullatus e 12 para S. sulphureus), publicados desde 1946. Os resultados mostraram que a serpente se alimenta majoritariamente de aves e pequenos mamíferos, como roedores e morcegos.

Serpente caninana não é peçonhenta e se alimenta de aves e pequenos mamíferos
Segundo a pesquisadora Silvia Cardoso, dados sobre o comportamento das serpentes neotropicais na natureza ainda são escassos, e são fundamentais para a conservação das espécies. “Para preservar esses animais e seus habitats, precisamos saber como eles vivem, o que comem, como interagem com o ambiente. Só assim é possível estabelecer metas e planos eficazes de conservação”, afirma.
A especialista alerta também que o comportamento das serpentes que vivem sob cuidados humanos é diferente do que é observado em vida livre, especialmente no caso de animais que vivem em biotérios. No Museu Biológico, por exemplo, as espécies recebem recintos planejados e ambientados para reproduzir seu habitat natural – com umidade, temperatura e substratos específicos –, o que ajuda a ter uma representação mais fiel do que acontece na natureza.
“Aqui no museu existe uma ambientação, então conseguimos observar e estudar uma série de comportamentos naturais como, por exemplo, o cuidado parental das serpentes fêmeas de algumas espécies, que cavam para botar os ovos ou se enrolam nos ovos para protegê-los”, conta.
Ainda assim, as observações na natureza são imprescindíveis para conhecer a biologia do animal, e até para entender o quanto o comportamento no recinto pode de fato se assemelhar ao de vida livre. “É um desafio: você pode fazer uma viagem de campo e não avistar nenhuma serpente. Vê-las acasalando ou se alimentando, então, requer um pouco de sorte”, completa.

Passarinho neinei ou bem-te-vi-do-bico-largo
Outro registro inédito foi o comportamento antipredatório dos pais das aves. Na observação feita no Brasil, o filhote de gavião predado pela caninana emitiu chamados de alarme repetidamente, e os pais atacaram a serpente cinco vezes para defender a prole. “Os ataques fizeram a cobra cair no chão, mas ela não soltou a presa. Por fim, os pais abandonaram o filhote”, relata o estudo.
Um comportamento semelhante foi visto em Honduras. Quando os dois filhotes de neinei foram atacados, os pais começaram a fazer voos curtos ao redor do ninho, alertando outras aves sobre a presença de um predador, e passaram a contrair os músculos para “levantar” as penas – uma estratégia de defesa que faz a ave parecer maior. No entanto, não foi possível impedir a predação.
“As serpentes do gênero Spilotes são ágeis, fortes e robustas, podendo atingir mais de 2,5 metros de comprimento. Isso dificulta a defesa das aves”, explica Silvia.

Em um estudo conduzido entre 2013 e 2015, ao analisar os registros da Recepção de Animais do Instituto Butantan, a pesquisadora se surpreendeu com os alimentos que a população deixava nas caixas de transporte para as serpentes que traziam ao Butantan. Os mais curiosos itens foram encontrados, como frutas, verduras, macarrão e até ração de cachorro.
“Isso reforça o quanto ainda existe desinformação e desconhecimento sobre as serpentes e a importância da divulgação científica e da educação ambiental para a conservação desses animais”, diz a cientista.
Todas as serpentes são carnívoras e se alimentam de outros bichos, como anfíbios, roedores, lagartos, aves e aranhas. Algumas comem outras serpentes, como a muçurana (gênero Clelia), que inclui na dieta até espécies peçonhentas como jararaca e cascavel. A coral-verdadeira (gêneros Micrurus e Leptomicrurus), uma das mais peçonhentas do Brasil, também se alimenta de outras cobras.
Em outro estudo recente, Silvia Cardoso e Circe Cavalcanti de Albuquerque, também pesquisadora do Museu Biológico, foram as primeiras a comprovar que a cobra-papagaio (Corallus batesii) se alimenta de aves – o que lhes rendeu reconhecimento internacional. Conhecida no exterior como jiboia-esmeralda da Bacia Amazônica, essa serpente é arborícola e vive boa parte do tempo no topo das árvores de florestas tropicais.



