Reportagem: Camila Neumam
Fotos: André Ricoy e acervo pessoal
O mar cristalino e a natureza exuberante da praia da Ferrugem encantaram a família Braga, que havia deixado o urbano bairro do Jabaquara, na capital paulista, para passar as festas de fim de ano em Garopaba, no litoral catarinense.
Em 20 de dezembro de 2025, o pai José, de 69 anos, a mãe Maria, de 66 anos, e a filha Amanda, de 37 anos, se instalaram em uma pousada no município localizado a 90 km ao sul da capital Florianópolis, ansiando por explorar o encontro do mar azul com a lagoa cor de ocre, que dá nome à famosa praia.
No dia seguinte, com roupas de banho e chinelos nos pés, decidiram fazer uma trilha por um dos morros locais, rodeados de Mata Atlântica, que chegaria até a praia. Tudo ao redor parecia maravilhoso e um convite para dezenas de selfies. Mas, no meio do caminho, tinha uma serpente, e o que aconteceu depois disso a família nunca mais vai esquecer.
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José Cavalcanti Braga no dia de sua alta no Hospital Vital Brazil; ele recebeu seis ampolas de soro antibotrópico após ser picado por uma jararaca em Garopaba (SC)
“Estávamos apreciando aquele lugar lindo, mas, de repente, senti uma picada no dedo mindinho do pé esquerdo. Como não doeu muito, eu segui. Depois de uns 20 metros senti a vista escurecer e precisei parar”, conta José Cavalcanti Braga, que é representante comercial de uma distribuidora de medicamentos em São Paulo.
Ninguém tinha certeza de que se tratava de uma cobra, mas a família preferiu levar Braga, como o pai é conhecido, à Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) mais próxima. A hipótese de acidente ofídico foi descartada pela equipe médica, e o cearense natural de Mauriti recebeu um analgésico intravenoso, além de uma receita de antibiótico, e foi liberado.
No dia seguinte, o patriarca, sempre disposto, estava prostrado, com o pé esquerdo inchado e hematomas espalhados pelo corpo. A família retornou à unidade de saúde, onde outro médico pediu um exame de sangue que não teria apresentado nenhuma anormalidade. “O médico mudou o antibiótico e acrescentou um corticoide e um anti-inflamatório. Comprei os remédios na farmácia, mas senti que o corpo e as mãos começaram a ficar mais doloridos e roxos”, relembra.
A imprecisão no diagnóstico desesperou a família, que resolveu voltar para São Paulo para ouvir outra opinião médica. Em um hospital particular, Braga já apresentava sangramentos pelo corpo e na urina, dificultando a realização de novos exames. Um médico que analisou o quadro desconfiou de envenenamento por inseto e ligou na noite do dia 23/12 para o Hospital Vital Brazil (HVB), localizado no Instituto Butantan, o único do país especializado no atendimento de acidentes causados por animais peçonhentos.
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A equipe do HVB analisou fotos e exames e constatou que as equimoses extensas, o distúrbio de coagulação e os dois pontos de picada no pé de Braga condiziam com uma picada de jararaca. Por isso foi recomendada a remoção do representante comercial para a unidade. O patriarca chegou de ambulância no dia 24/12, por volta das 6h.
“Era um quadro potencialmente grave. Se ele tivesse continuado sem o soro, poderia evoluir para complicações renais ou hemorragias graves. Nesses casos, não adianta tentar corrigir só os sintomas, usar antibiótico, porque somente o soro neutraliza o veneno e interrompe todo o processo do envenenamento”, afirma a infectologista Roberta Piorelli, médica do HVB que atendeu José Braga.
O representante comercial ficou impressionado com o atendimento do hospital público. “A doutora Roberta me acolheu, me examinou e falou ‘o senhor foi picado por uma jararaca e vamos aplicar seis ampolas de soro antibotrópico’. Ela sabia o que estava fazendo, senti uma segurança muito grande”, conta.
Braga também se surpreendeu com a sua rápida recuperação após receber o antídoto. “O soro tirou toda aquela dor com a mão. Em poucas horas eu saí da emergência e fui para o quarto. Tive alta no dia seguinte.”
Geralmente, pacientes que sofrem acidente por animal peçonhento ficam mais tempo no hospital em observação. Mas, dada a ótima recuperação de Braga, a equipe médica do HVB o liberou para passar o Natal em casa, desde que ele voltasse para algumas consultas ambulatoriais. Depois de um mês, e algumas idas ao hospital, ele já havia se recuperado totalmente.
Maria Cavalcanti Braga lembra com gratidão do atendimento que o marido teve no HVB. “Eles salvaram a vida dele e temos que ser gratos. Chega a ser emocionante porque foi um susto e tanto. Temos que confiar no SUS [Sistema Único de Saúde] e na ciência. A ciência salva”, diz.

Roberta Piorelli alerta que o uso de calçados inadequados é um dos principais fatores de risco de acidentes com serpentes. “O ideal é não andar em trilhas de chinelo ou descalço. Mesmo um sapato fechado não impede totalmente a picada, mas reduz bastante a gravidade da lesão”, orienta.
A infectologista também destaca a importância de observar atentamente o solo, já que as serpentes se camuflam na mata, e de procurar imediatamente um serviço de saúde em caso de acidente.
“Se for possível e seguro, tire uma foto do animal. Cada região tem uma fauna diferente, e as características da picada nos ajudam a orientar os colegas médicos desde o primeiro atendimento”, explica.
Roberta reforça que práticas populares podem agravar o quadro e devem ser evitadas:
“Não façam torniquete. Isso não impede o veneno de se espalhar e ainda piora a circulação, aumentando o risco de necrose. Não façam cortes, não tentem sugar o veneno, não passem substâncias caseiras como álcool, querosene, urina, plantas ou qualquer outro produto no ferimento”, alerta.
A recomendação correta é simples: lave o local com água e sabão e busque atendimento médico o mais rápido possível.
“O mais importante é não perder tempo e, na dúvida, ligar para o Hospital Vital Brazil. Recebemos fotos da lesão, do animal, os exames e orientamos a condução do caso, além de indicar onde há soro disponível. Informação e rapidez salvam vidas”, conclui.



