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Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas: entenda o conceito e a importância desse controle para a saúde pública

Antes uma preocupação restrita aos países em desenvolvimento, as DTNs se tornam uma questão global com os impactos causados pelas mudanças climáticas e a globalização


Publicado em: 30/01/2026

Reportagem: Beatriz Milanez
Fotos: André Ricoy, José Felipe Batista, Marília Ruberti e Shutterstock

O que dengue, Zika, chikungunya, esquistossomose e a doença de Chagas têm em comum? Além de serem enfermidades mais comumente encontradas em países em desenvolvimento, todas elas constam no grupo de Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs). Essa classificação, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em meados dos anos 2000, tem como objetivo jogar luz para doenças que historicamente, tardaram a fazer parte da agenda global de saúde, recebendo menos atenção e investimento ao longo das décadas.

As DTNs compreendem 21 enfermidades, a maioria delas infecciosas – podendo ser causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas – e que afetam mais de 1,5 bilhão de pessoas ao redor do mundo. O nome do grupo faz referência ao fato de que essas doenças atingem principalmente comunidades em situação de vulnerabilidade social – como zonas rurais, zonas de conflito e regiões de difícil acesso –, em grande maioria localizadas em regiões como África, América Latina e Ásia. Nesses locais, as desigualdades sociais e econômicas se fazem tão presentes que comprometem questões básicas e fundamentais para a saúde e a qualidade de vida, como tratamento de água e esgoto

Para a pesquisadora científica e diretora do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan, Eliana Nakano, o resultado é um ciclo vicioso: as Doenças Tropicais Negligenciadas são a causa e a consequência das condições de uma pobreza estrutural, uma vez que a falta de condições ideais de vida é o ambiente propício para a propagação de patógenos, somada à ausência de políticas públicas dedicadas a sua erradicação.

 

No Brasil, as Doenças Tropicais Negligenciadas mais frequentes são: 

•    Doença de Chagas: causada pelo protozoário Tripanossoma cruzi e transmitida pelo inseto barbeiro
•    Leishmaniose (visceral e cutânea): transmitida pelo mosquito-palha
•    Hanseníase: doença crônica que afeta pele e nervos
•    Esquistossomose: transmitida por caramujos 
•    Dengue, Zika e chikungunya: transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti
•    Raiva: transmitida por mamíferos infectados
•    Helmintíases: transmitidas por parasitas encontrados em solo contaminado
•    Tracoma: infecção ocular que causa cegueira
•    Envenenamento por picada de serpente
•    Sarna: causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei, é transmitida por contato direto com a pele da pessoa infectada

 

A pesquisadora científica e diretora do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan, Eliana Nakano

 

Entre as ações já realizadas pela OMS para dedicar esforços ao combate das DTNs estão a criação de um Departamento de Controle focado nelas; a publicação da Declaração de Londres, em 2012, com o primeiro roteiro de combate às DTNs; e o roteiro atual sobre o assunto, lançado em janeiro de 2021, durante a Assembleia da Saúde da OMS, que colocou o 30 de janeiro como o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas e estabeleceu diversas metas a serem cumpridas até 2030, entre elas: 


•    Reduzir em 90% o número de pessoas que necessitam de intervenções contra Doenças Tropicais Negligenciadas
•    Reduzir em 75% as mortes por doenças transmitidas por vetores
•    Alcançar o número de 100 países eliminando ao menos uma Doença Tropical Negligenciada 
•    Garantir que 90% dos países coletem e divulguem dados sobre DTNs desagregados por gênero

 

 

Importância crescente e caminhos possíveis 

Embora as DTNs não causem um impacto tão evidente em termos de mortalidade, o impacto se dá em questão de morbidade. “Como as DTNs são crônicas, acabam por tirar a pessoa de sua vida normal”, explica Eliana Nakano. Isso significa que um adulto produtivo, ao ser infectado por uma doença negligenciada, poderá perder anos de vida saudável, o que reduz sua produtividade econômica e capacidade de geração de renda, afetando a economia dos países endêmicos e sobrecarregando o sistema público de saúde, o que dificulta ainda mais o atendimento eficaz. 

Ainda que continuem recebendo menos recursos do que doenças como câncer, condições cardíacas e HIV/AIDS, o cenário das DTNs vem mudando. Os principais fatores para isso são as mudanças climáticas, que afetam os mais diversos padrões naturais; e a globalização, que reflete em migrações por deslocamento forçado em casos de guerras, problemas econômicos e, também, por mudanças climáticas. “Essa maior mobilidade de pessoas contribui para que os patógenos circulem com mais facilidade por vários lugares e acabem encontrando locais com condições favoráveis para sua propagação, inclusive em zonas até então não endêmicas, como América do Norte e Europa”, destaca a pesquisadora do Instituto Butantan. 

Para evitar o efeito cascata, é preciso agir de maneira preventiva. No caso das DTNs, a prevenção começa com investimento em políticas públicas para melhoria de saneamento básico, fornecimento de água tratada e educação ambiental, e passa pela vacinação de doenças preveníveis como dengue e chikungunya – o Instituto Butantan atua na produção e desenvolvimento dos dois imunizantes. Outra frente de esforço envolve combater a subnotificação dos casos: nem todas as pessoas infectadas por DNTs procuram ajuda médica, especialmente quando os sintomas são mais abrangentes.

O monitoramento ambiental de vetores das doenças também é uma estratégia, alinhada com a política da OMS dentro do programa Global Vector Control Response.

A partir do conceito de Saúde Única, controlar os vetores por meio de monitoramento ambiental torna possível eliminar a transmissão de algumas dessas doenças”, aponta Eliana. 

 

Mosquito Aedes aegypti

 

O Butantan e as DNTs

Pesquisar e propor alternativas para combater as Doenças Tropicais Negligenciadas é um dos focos do Butantan desde sua fundação. O tratamento de acidentes ofídicos, por exemplo, foi uma das primeiras esferas de atuação do Instituto, no início do século XX, e até hoje a instituição é a maior produtora de soros contra picadas de serpente do Brasil. A vacina da dengue, que foi aprovada para aplicação no Brasil no final de 2025, já está sendo distribuída para a população, e o mesmo deve acontecer com a vacina da chikungunya em breve. Em relação à Zika, o Instituto trabalha no desenvolvimento de um anticorpo monoclonal para o tratamento da doença, e em uma vacina preventiva. Já quanto à raiva, o Butantan produz o soro usado atualmente na prevenção e no tratamento pós-infecção, e desenvolve uma vacina contra a doença. Além disso, a doença de Chagas também é foco de estudo do Instituto.
 
“Como pesquisadores e cientistas do Butantan, que é um instituto voltado para a saúde pública, temos essa missão de divulgar cada vez mais sobre as Doenças Tropicais Negligenciadas e a importância de combatê-las. Faz parte do nosso papel falar, no dia a dia, sobre o tema e conscientizar a população”, ressalta Eliana Nakano, que tem como seu objeto de estudo outra DNT: a esquistossomose. 

Popularmente conhecida como barriga d'água e causada pelo parasita Schistosoma mansoni, a enfermidade é transmitida pelo caramujo de água doce, que abriga o parasita e libera larvas que infectam o homem ao penetrarem em sua pele. Quando desenvolve a doença, o homem também libera ovos do parasita através das fezes, que, por sua vez, vão infectar a água novamente – e assim sucessivamente. É por isso que locais com baixas condições de saneamento estão mais suscetíveis a registrar casos da doença.

 

 

A mitigação da esquistossomose exige o controle dos hospedeiros intermediários, mas a prática pode causar desequilíbrio ambiental, uma vez que o produto usado para o controle é altamente tóxico. É possível, então, detectar se um determinado local está infectado a partir da coleta e análise da água. “Isso acontece com investimento público, mas, como essas doenças foram negligenciadas por muito tempo, ainda é difícil colocar em prática. A indústria farmacêutica também não se voltou para investir em novos fármacos de combate à esquistossomose. Os que existem estão no mercado há décadas”, ressalta Eliana.

Foi esse cenário que levou a pesquisadora, junto com sua equipe, a desenvolver estudos de bioprospecção dentro do Laboratório de Parasitologia do Butantan: a busca é por compostos ativos provenientes da biodiversidade brasileira que possam atuar no combate à esquistossomose.

O estudo analisa mais de 40 espécies de algas marinhas que possuem um composto que, ao ser extraído e testado nos vetores da doença, reage de maneira combativa contra os caramujos. O grupo também busca compostos ativos em venenos de espécies estudadas no próprio instituto, e já identificou um deles em sapos. A partir desses estudos, foram identificados compostos com atividade antiparasitária em venenos e algas marinhas. Futuramente, a pesquisa pode dar origem a um produto para o controle do vetor – atualmente a eliminação dos caramujos se dá com o uso de produtos químicos de alta toxicidade, e o único composto do tipo é proibido no Brasil.