Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Bruna Custódio/Comunicação Instituto Butantan
Nunca uma gestação foi tão celebrada no Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan. Olinda e Sapoti, fêmea e macho da espécie Lachesis rhombeata, conhecidas como surucucus-pico-de-jaca da Mata Atlântica, finalmente acasalaram em uma noite fria de 6 de junho de 2025, depois de terem sido separados por três meses dentro do biotério. O resultado dessa união foi o nascimento de seis filhotes da espécie ameaçada, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026.
A intenção de separar o casal, que antes vivia junto, mas pouco se relacionava, era fazer com que “a saudade reacendesse a chama”. A ideia deu certo: logo na primeira noite houve a cópula e quatro meses depois a confirmação da gestação após um ultrassom.
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Frevioca foi um dos cinco filhotes de Lachesis rhombeata nascido no Laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan
A Lachesis rhombeata está ameaçada e vulnerável, devido à degradação da Mata Atlântica, segundo a Portaria número 17, de 5 de janeiro de 2026, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O documento aprovou o 3º ciclo do Plano de Ação Nacional para Conservação da Herpetofauna Ameaçada do Nordeste, e publicou uma lista dos animais ameaçados de extinção na região.
Diante deste contexto, o nascimento dos filhotes foi considerado estratégica para a conservação da espécie e se tornou motivo de comemoração de herpetólogos nas redes sociais.
“Esperamos quatro meses para fazer o exame de ultrassom, a fim de evitar qualquer estresse da Olinda com o manejo. Quando vimos que tinha fecundado, foi uma alegria imensa”, conta a médica veterinária e pesquisadora científica do laboratório de Herpetologia do Instituto Butantan, Kathleen Grego, responsável pelo projeto de reprodução das Lachesis sp.
O ultrassom visualizou nove embriões e, dias depois, Olinda fez a postura de nove ovos que começaram a se romper 74 dias depois, em datas diferentes. Como em qualquer missão de alto risco, infelizmente houve perdas: dois morreram dentro dos ovos, devido à desidratação, um nasceu com malformações genéticas (teratogênica), e um morreu um mês após nascer (Timão), mas cinco filhotes cresceram fortes e saudáveis.
O motivo de tanta empolgação acerca da gestação de Olinda remonta a uma saga pela preservação da maior espécie de serpente peçonhenta das Américas, que pode alcançar até três metros de comprimento, e é resultado de mais de 20 anos de tentativas de reprodução realizadas no laboratório de Herpetologia.
“O Butantan raramente possui um grupo grande e jovem de Lachesis rhombeata ao mesmo tempo. Como as serpentes chegam em momentos diferentes, muitas vezes resgatadas ou apreendidas, é comum que, ao receber uma fêmea jovem, por exemplo, os machos disponíveis já estejam velhos, diminuindo o sucesso da reprodução. Finalmente estávamos com casais jovens e em condições de se reproduzirem”, esclarece Kathleen Grego.
A empolgação foi tamanha que a equipe do Butantan resolveu caprichar nos nomes dos filhotes, fazendo homenagens ao filme “O Agente Secreto”, que ressalta a cultura pernambucana, de onde veio Olinda e Sapoti.
O longa do diretor recifense Kleber Mendonça Filho estava em evidência no país na época do nascimento dos filhotes, por ter recebido quatro indicações ao Oscar, entre elas a de melhor filme e a de melhor filme estrangeiro de 2026.
As fêmeas receberam os nomes de Sebastiana (personagem do filme), Pitomba (fruta típica de Pernambuco) e Frevioca (orquestra de frevo pernambucana) e um dos machos recebeu o nome de Suassuna (homenagem ao escritor pernambucano Ariano Suassuna). As únicas exceções foram os machos nomeados de Grego e Timão, homenagens à pesquisadora do Butantan Kathleen Grego e ao antigo diretor do Laboratório de Herpetologia Wilson Fernandes.
A pesquisadora Kathleen Grego acompanha a dinâmica das serpentes por câmera
Uma colaboração entre o Instituto Butantan, a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH) e o Laboratório Interdisciplinar de Anfíbios e Répteis (L.I.A.R.) da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) foi a responsável pelo envio de seis exemplares (três fêmeas e três machos) de Lachesis rhombeata ao Instituto entre 2022 e 2023.
Transportadas por via aérea, as serpentes desembarcaram no Instituto, em São Paulo, para uma missão estratégica: a produção de veneno para o soro antibotrópico-laquético (contra o veneno de jararaca e da surucucu-pico-de-jaca) e a tentativa de reprodução em cativeiro da espécie ameaçada.
O “namoro” de Olinda e Sapoti, sob a vigilância das câmeras de monitoramento do laboratório, foi a primeira tentativa de pareamento entre as surucucus fêmeas e machos pernambucanos, depois da separação estratégica. Antes, machos e fêmeas eram mantidos juntos no mesmo ambiente, com tentativas raras de cópula, mas nenhuma com sucesso reprodutivo.
Foi necessário adotar a estratégia de separação por três meses (de março a junho) para que, ao serem reunidos, houvesse o estímulo necessário para uma cópula efetiva e o monitoramento das fêmeas por meio de exames de ultrassom.
“Há mais de 15 anos, o uso do ultrassom no nosso biotério é fundamental para identificar a vitelogênese secundária, ou seja, o estágio em que os folículos estão prontos para a reprodução. Sem isso, o pareamento era feito apenas ‘no olho’, o que frequentemente resultava em falhas”, afirma Kathleen Grego.

Frevioca é uma homenagem ao caminhão decorado que transportava a orquestra de frevo pelas ruas de Pernambuco no carnaval
A dificuldade de reprodução da surucucu-pico-de-jaca em cativeiro se deve a uma combinação de fatores, que vão desde a logística de aquisição dos animais até a biologia específica e sensível da espécie.
Um exemplo que desafia os pesquisadores para além da disponibilidade de casais jovens, é a janela reprodutiva relativamente curta da espécie. “Nas fêmeas, observa-se algo semelhante a uma ‘menopausa’ por volta dos 10 anos de idade, quando os folículos ovarianos estão degenerados e tornam-se desorganizados, dificultando a fecundação”, esclarece Kathleen Grego.
Outro ponto que deve ser considerado é que a surucucu é uma espécie que tende a se estressar mais facilmente durante o manejo. Manipulações excessivas para exames ou monitoramento podem interferir negativamente no processo reprodutivo. No caso de Olinda, a equipe decidiu não realizar ultrassons mensais para evitar o estresse que poderia levar ao insucesso da fecundação.
“Os ovos são extremamente sensíveis à umidade. Qualquer ‘erro de ambiente’ pode levar à desidratação e morte dos embriões, o que exige um controle rigoroso ou a decisão de dividir a ninhada entre o cuidado da mãe e a incubação artificial”, afirma a pesquisadora.
O sucesso recente com Olinda foi possível porque, pela primeira vez, o instituto contou com um plantel jovem e adaptado, aliado a técnicas de manejo que respeitaram o tempo e a sensibilidade biológica da espécie.
Diferentemente da maioria dos répteis que abandonam suas posturas, a surucucu-pico-de-jaca é uma mãe exemplar. Após a postura de nove ovos em outubro de 2025, Olinda permaneceu enrodilhada sobre eles, um gesto que significa proteção.
"O enrodilhamento serve para aumentar a temperatura dos ovos e manter a umidade deles, essencial para os filhotes nascerem saudáveis, e evitando que predadores comam os ovos", explica a pesquisadora.
No Butantan, a equipe optou por um sistema de cuidado compartilhado para mitigar riscos: quatro ovos foram para a incubação artificial e cinco ficaram sob o corpo protetor de Olinda.
Kathleen posa com o crachá de identificação do filhote Grego, batizado em sua homenagem
Cada nascimento foi uma vitória celebrada na Herpetologia, e, especialmente para Kathleen Grego, que abriu mão do feriado de fim de ano para acompanhar o rompimento das cascas. Os nascimentos não ocorreram em um único ato, mas em uma sequência que se estendeu do dia 30 de dezembro até meados de janeiro.
Os filhotes fizeram suas próprias fendas nos ovos para ganhar o mundo e o nascimento de exemplares da espécie foi inédito em 125 anos de Instituto Butantan.
Os nomes escolhidos formam uma tapeçaria de homenagens à cultura pernambucana e aos heróis do cotidiano científico:
Sebastiana foi a primogênita, nascida em 30 de dezembro de 2025 com quase 59 gramas. Seu nome é uma homenagem à simpática e misteriosa personagem do filme “O Agente Secreto”, que recebe migrantes secretamente na capital pernambucana.
Pitomba nasceu em 31 de dezembro, e teve seu nome escolhido pelo público por meio de uma enquete no Instagram do Laboratório de Herpetologia.
Grego, o macho também nascido no último dia do ano, recebeu o nome em homenagem direta à pesquisadora Kathleen Grego, que é responsável por cuidar dos animais no laboratório. "Foi um reconhecimento, já que tomo conta delas. Como a espécie pode viver até 15 anos em cativeiro, vão falar meu nome mesmo se eu não estiver aqui”, conta Kathleen emocionada.
Nascida em 9 de janeiro de 2026, uma outra fêmea aguardava um batismo especial. Em sinal de gratidão pela parceria histórica, o Laboratório de Herpetologia pediu às professoras da UFRPE (L.I.A.R) que escolhessem seu nome: Frevioca, caminhão decorado que transportava a orquestra de frevo pelas ruas de Pernambuco no carnaval.
Em homenagem ao antigo diretor do Laboratório de Herpetologia, Wilson Fernandes, que iniciou os cuidados com as Lachesis na década de 90, o Laboratório pediu para ele batizar um dos machos, que recebeu o nome de Timão. O filhote nasceu em 16 de janeiro, mas infelizmente faleceu dois meses depois.
O macho Suassuna nasceu em 19 de janeiro, e teve o seu nome escolhido como homenagem ao renomado escritor pernambucano Ariano Suassuna (1927-2014), autor da célebre obra literária “O Auto da Compadecida”. Embora tenha nascido menor que seus irmãos, com 47 centímetros de comprimento, Suassuna revelou-se o filhote mais voraz e "comilão" da ninhada.

Pitomba foi uma das serpentes batizadas em homenagem ao filme brasileiro O Agente Secreto
Ao nascerem, os filhotes já possuem veneno e instinto de caça, mas o papel do Butantan continua essencial para que cresçam saudáveis. A cada nascimento, o laboratório reforça a importância da conservação ex situ — fora do ambiente natural — garantindo que, se a população da Mata Atlântica diminuir, haverá um polo de preservação capaz de manter a linhagem viva.
"Fico feliz porque o resultado final demonstra que temos um plantel adaptado”, analisa Kathleen.
Contudo, a pesquisadora pondera que o resultado somente foi possível graças à parceria entre o Instituto Butantan e os órgãos pernambucanos, algo vital para a reprodução em cativeiro, especialmente por se tratar de uma serpente natural de um bioma que sofre grande devastação.
“Manter e reproduzir esses animais no Butantan e em outros institutos cria polos de preservação que garantem a manutenção da linhagem caso a população diminua drasticamente na natureza”, conclui a pesquisadora Kathleen Grego.



