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Centro de Memória do Butantan celebra legado do parasitologista Lauro Pereira Travassos Filho em novo inventário

Pesquisador chefiou a Seção de Parasitologia do Instituto Butantan entre 1969 e 1988 e contribuiu para preservar coleções científicas e combater vetores de doenças


Publicado em: 27/03/2026

Reportagem: Aline Tavares
Fotos: Acervo Instituto Butantan/Centro de Memória
 

O Centro de Memória do Instituto Butantan lança, na próxima terça (31/3), o Inventário do Fundo Lauro Pereira Travassos Filho, que documenta e celebra as colaborações do parasitologista e ex-pesquisador do Instituto Butantan. Lauro chefiou a Seção de Parasitologia da instituição entre 1969 e 1988 e se dedicou à pesquisa de insetos e ácaros parasitas, tendo coletado inúmeros exemplares para as coleções científicas e contribuído para o controle de vetores de doenças, como esquistossomose e doença de Chagas.

Aberto ao público, o evento de lançamento do inventário acontece das 9h30 às 12h no Auditório do Centro de Difusão Científica, no Parque da Ciência Butantan.

O acervo reúne os mais diversos documentos profissionais e pessoais do pesquisador, como trabalhos publicados, fotografias de espécimes de insetos coletadas, anotações de pesquisa, relatórios, desenhos, resumos de aulas e cartas trocadas com outros cientistas e amigos. A multiplicidade do material permite compreender todo o fazer científico de Lauro Travassos Filho, das ideias até os artigos finais, sem perder de vista seu lado humano.
 

Pesquisador Lauro Pereira Travassos Filho em seu laboratório no Butantan

 Lauro Pereira Travassos Filho em sua sala no Instituto Butantan. Sem data.
 

Para a diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan, Suzana Fernandes, além de ajudar a navegar pelo acervo, o inventário contribui para aproximar a população do cientista e da parasitologia. “Este inventário, fruto de um intenso trabalho de investigação do Centro de Memória, é um instrumento de pesquisa importante da instituição e da história da ciência, e ajuda a democratizar o conhecimento gerado pelo pesquisador”, afirma.

O documento também ressalta Lauro Travassos Filho como referência na comunidade científica e na área de parasitologia, trazendo relatos de pesquisadores que trabalharam e aprenderam ao seu lado – carinhosamente apelidados de “afilhados” –, como Roberto Henrique Pinto de Moraes, pesquisador aposentado do Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan.

Acho que penso nele quase todos os dias. Penso como ele estaria feliz em ver que nós, seus estagiários afilhados, nos tornamos cientistas de verdade. Que nos tornamos pesquisadores e que a base que ele nos deu foi o início de tudo”, escreve Roberto.

 

Fotografia do artigo científico “Redescrição de Pericopis picta (Guérin, 1844) (Lepidoptera Pericopidae), estudo de suas fases cromáticas e dados bionômicos”

 

Um cientista de múltiplas facetas

Lauro Pereira Travassos Filho (1918-1989) formou-se em Biologia Geral e em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP), entre 1936 e 1937, e em Medicina e Clínica Cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina, em 1940. Entre 1939 e 1969, foi pesquisador do Departamento de Zoologia da Secretaria de Agricultura, que posteriormente se tornou o Museu de Zoologia da USP.

Seu principal objeto de pesquisa eram os insetos – interesse que começou ainda na infância, quando acompanhava o pai Lauro Pereira Travassos, helmintologista do Instituto Oswaldo Cruz, em suas viagens para coleta de espécimes.

Lauro Travassos Filho foi convidado para ingressar no Instituto Butantan em 1969, onde reabriu e dirigiu a Seção de Parasitologia até se aposentar, em 1988. Entre suas contribuições, destacam-se pesquisas sobre o controle de vetores de doenças, como larvas de mosquitos e caramujos aquáticos. Sua equipe também se dedicou à revisão e conservação da coleção parasitológica e de ácaros e à criação de uma coleção de insetos hematófagos (aqueles que se alimentam de sangue, como os mosquitos).

Como médico, Lauro colaborou com o Hospital Vital Brazil, especializado no atendimento de pacientes acidentados por animais peçonhentos. Além disso, dedicou-se a atividades de divulgação científica enquanto diretor da Divisão de Extensão Cultural do Butantan, entre 1970 e 1971, tendo ministrado cursos sobre insetos urticantes, como as lagartas.

Ao longo de sua trajetória, também foi presidente da Comissão Permanente de Risco de Vida e Saúde do Estado de São Paulo (1962-1970), presidente da Sociedade Brasileira de Entomologia (1963-1969) e professor de Taxonomia de Insetos no curso de Pós-Graduação em Entomologia da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da USP (ESALQ-USP).

 

Atividade de digitalização dos documentos do fundo Lauro Travassos Filho, 2025.


O trabalho do Centro de Memória

A organização dos documentos do inventário vem sendo realizada desde 2017, quando as documentações relacionadas a Lauro Pereira Travassos Filho foram caracterizadas e separadas do Fundo Instituto Butantan. Essa divisão ocorreu porque os arquivos do acervo traziam aspectos da vida do pesquisador que iam além de sua atuação dentro do Butantan, caracterizando um fundo pessoal.

Em 2019, uma primeira descrição do material foi feita como parte do projeto de pesquisa “Documentos de cientista: a organização arquivística do Fundo Pessoal de Lauro Pereira Travassos Filho”, realizado pela historiadora Juliana Cabral da Silva durante o curso de Especialização em História, Museologia e Divulgação da Ciência e Saúde do Instituto Butantan. O trabalho foi aprofundado em sua tese de mestrado em Ciência da Informação, defendida pela Escola de Comunicações e Artes da USP em 2022.

“Além da análise dos documentos do acervo do Instituto Butantan, foi necessário um extenso trabalho de pesquisa em outras fontes e a realização de entrevistas para entender a trajetória do pesquisador, suas redes de relacionamento e interesses pessoais”, conta Juliana, atualmente analista de documentação no Centro de Memória.

Para a diretora do Centro de Memória do Instituto Butantan, Olga Alves, os fundos pessoais são importantes tanto para mostrar à sociedade o trabalho dos cientistas como para valorizar e preservar a memória da instituição. “A história do Butantan está nesses acervos, a história dos laboratórios está nesses acervos. É uma documentação que enriquece a memória institucional e mostra o lado humano do fazer científico”, resume.

O Centro de Memória possui 19 fundos pessoais de pesquisadores e servidores que contribuíram para o desenvolvimento do Instituto, além de documentos que mostram as atividades administrativas, culturais, de pesquisa e produção da instituição ao longo de seus 125 anos de existência.

Para conhecer mais sobre a história do Instituto Butantan, acesse o Repositório Digital do Centro de Memória. Caso deseje agendar uma consulta presencial, entre em contato pelo telefone (11) 2627-9808 ou pelo e-mail memoria@butantan.gov.br.


Esta matéria contou com a colaboração da diretora do Centro de Desenvolvimento Cultural do Butantan, Suzana Fernandes; da diretora do Centro de Memória, Olga Alves; e das analistas de documentação Audrea Santos e Juliana Cabral.