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Encontro de saberes: Instituto Butantan recebe indígenas da CASAI para intercâmbio entre ciência e tradição

Visitantes compartilharam com profissionais do Instituto experiências sobre prevenção de acidentes, medicina tradicional e a importância da preservação da memória e da educação


Publicado em: 23/06/2026

Reportagem: Camila Neumam
Fotos: Bruna Custódio e Marília Ruberti

Na última sexta-feira (19), o Instituto Butantan abriu as portas do histórico Edifício Vital Brazil, que abriga a Biblioteca Científica e o Espaço de Leitura Infantojuvenil, e do Museu Biológico para um grupo especial de visitantes: cerca de 13 indígenas das etnias Guajajara, Terena, Xavante, Nafukuá, Baré, Paliku e Tuxá atendidos pela Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo (CASAI/SP).

A iniciativa, liderada pela pesquisadora científica e coordenadora de projetos de Divulgação Científica da Biblioteca, Maísa Splendore Della Casa, buscou promover uma troca entre o conhecimento científico e os saberes ancestrais dos povos originários.

A CASAI/SP é um estabelecimento vinculado ao Subsistema de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas do Sistema Único de Saúde (SASI-SUS), que recebe pacientes indígenas de todo o Brasil para tratamentos de saúde de média e alta complexidade indisponíveis em seus locais de origem.

Instituto Butantan recebe visitantes da Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo (CASAI/SP

Instituto Butantan recebe visitantes da Casa de Apoio à Saúde Indígena de São Paulo (CASAI/SP)

 

Para Maísa, o encontro foi uma forma de democratizar o espaço institucional: "A ideia é justamente democratizar a cultura indígena para todos os visitantes do Instituto, fazendo com que os indígenas se sintam em um território ao qual pertencem", disse.

 

O encontro sensorial com a história: livros e peles

 

A programação teve início na Biblioteca do Instituto Butantan, um lugar que Maísa descreve como "uma biblioteca científica no meio de uma floresta urbana". A escolha do local foi estratégica e simbólica. "Em um mundo de muitas telas, queremos promover o encontro com livros, um encontro sensorial de folhear páginas", explicou a pesquisadora científica. Ela traçou um paralelo entre a preservação das características originais do prédio histórico e a preservação das culturas dos povos originários.

 

A psicóloga do CASAI/SP Jaqueline Gonçalves Pessoa, do povo Baré (Amazonas), identificou a pele de uma urutu-cruzeiro na capa de um livro na biblioteca científica

A psicóloga Jaqueline Gonçalves Pessoa, do povo Baré, no Amazonas, diz que a pele de cobra encapada em um livro é semelhante a de uma serpente urutu-cruzeiro

 

Um dos momentos de maior fascínio durante a vivência ocorreu quando os visitantes tiveram contato com livros cujas capas são confeccionadas em pele natural de serpente. Ao manusear o acervo, a psicóloga do CASAI/SP Jaqueline Gonçalves Pessoa, do povo Baré (Amazonas), identificou imediatamente o padrão de uma das cobras.

"Essa aqui é uma urutu-cruzeiro, uma das mais poderosas", exclamou, referindo-se ao respeito que seus parentes no território amazônico têm pelo animal por considerá-lo extremamente venenoso.

 

 Jaqueline Gonçalves Pessoa diz ser uma honra poder visitar Instituto Butantan

 Jaqueline Gonçalves Pessoa diz ser uma honra poder visitar Instituto Butantan

 

A visita à Biblioteca Científica despertou memórias profundas em Jaqueline, que relembrou o início de sua trajetória profissional como técnica de enfermagem no Amazonas, onde trabalhou com médicos pesquisadores que solicitavam a coleta de espécimes para estudo. "Para mim, estar aqui no Butantan hoje é uma honra. Eu ouvia falar dessas pesquisas quando estava longe, dentro do território indígena, e hoje estou presente neste local", celebrou. 

A experiência ilustra o que Jaqueline define como a junção do conhecimento empírico e popular com o conhecimento científico.

“Atividades fora da rotina da CASAI somam significativamente ao processo de cuidado e tratamento dos pacientes, humanizando o período de internação”, afirmou.

 

Maísa mostra os livros históricos que fazem parte do acervo da biblioteca científica do Instituto Butantan

Maísa mostra os livros históricos que fazem parte do acervo da biblioteca científica do Instituto Butantan

 

Após a imersão histórica, o grupo seguiu para o Espaço de Leitura Infantojuvenil, no mesmo edifício, onde visitou uma exposição sobre literatura indígena, com destaque para a obra do escritor paraense Daniel Munduruku, e participou de atividades lúdicas criadas por Maísa e sua equipe. Utilizando cadernetas e adesivos que simulavam as texturas das peles de jararacas, corais e cascavéis, os visitantes puderam registrar suas próprias observações sobre a fauna brasileira.

 

Mariza Ioio, da etnia Paliku, mostra seus aneis durante a vivência

Mariza Ioio, da etnia Paliku, mostra seus aneis durante a vivência

 

Os participantes também folhearam os livros "Serpentes – Arte & Ciência" (2012), escrito pelo pesquisador científico do Instituto Butantan Henrique Moisés Canter (1938-2021), e “Jararaca sim, com muito orgulho!” (2015), do pesquisador científico do Instituto Butantan Otávio Marques.

 

Visitantes leem livros no espaço de literatura infantojuvenil do edifício Vital Brazil

Visitantes leem livros no espaço de literatura infantojuvenil do edifício Vital Brazil

 

O soro do Butantan e a medicina tradicional

 

A importância do trabalho do Instituto Butantan na produção de soros antiofídicos ganhou um rosto e uma história com o depoimento de Kleber Tagukui Aigi Nafukua, da etnia Nafukua. Agente de saneamento na aldeia Paranatum, em Querência (MT), Kleber sobreviveu a uma picada de jararaca há cinco anos

Ele descreveu à reportagem do Portal do Butantan uma jornada dramática do envenenamento à cura: picado em uma manhã enquanto coletava material para construção, ele aguardou socorro até a tarde, quando foi encontrado pelo sogro.

 

Kleber Tagukui Nafukua é agente de saneamento em sua aldeia no MT onde orienta sobre como prevenir acidentes com animais peçonhentos

Kleber Tagukui Nafukua é agente de saneamento em sua aldeia no MT onde orienta sobre como prevenir acidentes com animais peçonhentos

 

Devido à logística complexa, Kleber só recebeu o soro antiofídico à noite, após viajar horas de barco até a cidade. "O médico falou que eu tive muita sorte, porque eu poderia ter perdido a perna", contou. 

Kleber destacou que sua recuperação foi um esforço conjunto entre a medicina hospitalar, onde recebeu o soro antibotrópico e ficou internado por duas semanas, e a medicina tradicional indígena. Ele conta que seu sogro aplicou medicamentos da floresta e realizou o procedimento de "arranhar" (fazer finos cortes no local da picada), o que, segundo ele, foi fundamental para que voltasse a andar sem sequelas. 

No entanto, especialistas em acidentes ofídicos do Hospital Vital Brazil, localizado no Instituto Butantan, informam que usar torniquetes, fazer perfurações ou tentar sugar o veneno após a picada são totalmente contraindicados após o acidente ofídico. Isso porque podem inflamar ainda mais a lesão e aumentar o risco de amputações. Em caso de acidente com animal peçonhento, deve-se procurar a unidade de saúde mais próxima para receber o antiveneno adequado.

Hoje, Kleber atua na orientação da comunidade sobre a limpeza dos quintais e o cuidado com a água para evitar doenças e sobre prevenção de acidentes com animais peçonhentos.

 

Educação como pilar do tratamento

 

A visita também lançou luz sobre a importância de manter projetos educacionais para indígenas. O pedagogo da CASAI/SP Laerte Rupré, do povo Xavante, explicou como a educação se torna uma aliada no processo de cura, pois muitos pacientes pediátricos ficam em São Paulo por períodos longos, para tratamentos complexos.

 

O pedagogo da CASAI/SP Laerte Rupré, do povo Xavante, atua como uma ponte entre o tratamento em São Paulo e as escolas nas aldeias de origem

O pedagogo da CASAI/SP Laerte Rupré, do povo Xavante, atua como uma ponte entre o tratamento em São Paulo e as escolas nas aldeias de origem

 

"Meu papel é garantir que essas crianças não percam a aprendizagem e continuem seus estudos", destacou Laerte. Ele trabalha a caligrafia e a alfabetização em português, “já que muitas crianças chegam falando apenas suas línguas maternas”, contou. 

Além disso, Laerte atua como uma ponte entre o tratamento em São Paulo e as escolas nas aldeias de origem, solicitando atividades para que o vínculo escolar não seja rompido.

 

O pedagogo tira fotos das exposições do edifício Vital Brazil

O pedagogo tira fotos das exposições do edifício Vital Brazil

 

Frutos da interação entre educação, cultura e saúde

 

A vivência culminou no Museu Biológico, onde o grupo pôde ver de perto as espécies que conhecem em seus biomas e algumas de outras regiões. Acompanhados pela líder educacional Lua Bissoli Silva, os visitantes interagiram com a jiboia Afonso e aprenderam sobre o uso do veneno na produção de soros. 

 

O líder educacional Lua Bissoli Silva apresenta a jiboia Afonso para os visitantes

A líder educacional Lua Bissoli Silva apresenta a jiboia Afonso para os visitantes

 

Espécimes como a víbora dos lábios brancos, a Rita Lee, e a sucuri de 6 metros e 97 kg chamou a atenção dos visitantes.

“Já vi uma sucuri dessa quando eu estava pescando no rio e não tive medo”, contou o destemido estudante de origem terena Reverton Marques Borges, de 17 anos, que fotografava o animal com seu celular. 

 

O jovem Reverton Marques Borges, de 17 anos, diz conviver com sucuris e não ter medo delas

Reverton Marques Borges, de 17 anos, diz conviver com sucuris e não ter medo delas

 

Atento aos detalhes do museu, o jovem fez questão de apresentar à reportagem o perfil do Instagram da Aldeia Tereguá, em Avaí (SP), onde mora. Seu pai Revelino Correia Borges, de 47 anos, trabalhador rural na aldeia, contou que o aparecimento das sucuris impediu os moradores de tomarem banho naquele rio, como forma de segurança.

 

O estudante de origem guajajara Marcos Silva Soares, de 9 anos, observa a jiboia Afonso no Museu Biológico

O estudante de origem guajajara Marcos Silva Soares, de 9 anos, observa a jiboia Afonso no Museu Biológico

 

Para a fisioterapeuta da CASAI/SP, Mariane Araújo de Souza, a experiência no Instituto Butantan foi "enriquecedora". "Momentos como esse promovem educação em saúde, integração, lazer e fortalecem o vínculo entre pacientes e equipe, tornando o cuidado mais humanizado", avaliou.

 

A mãe de Kleber, Yaluhá Nafukuá observa os animais no Museu Biológico

A mãe de Kleber, Yaluhá Nafukuá observa os animais no Museu Biológico

Maísa Splendore espera que esta iniciativa seja uma inspiração para outras instituições. "Nossa ideia é que a gente divulgue essa atividade para que outros equipamentos de cultura ou ciência possam reproduzi-la e dar cada vez mais luz aos povos originários", concluiu.

 

Marisa Ioio observa a exposição sobre cultura indígena no espaço literário

Marisa Ioio observa a exposição sobre cultura indígena no espaço literário