Reportagem: Camila Neumam
Fotos: José Felipe Batista
A trajetória da bióloga e pesquisadora do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan Camila Lorenz, como a de muitos cientistas, começou com perguntas simples feitas ainda na infância. Mais precisamente durante as brincadeiras no quintal de sua casa em Curitiba (PR), onde junto com o irmão mais novo ela coletava insetos e os colocava em potinhos para observar como os bichos se comportavam.
Naquela época, a paranaense mal sabia que estava dando os primeiros passos para se tornar uma das vozes da nova geração de pesquisadores que estudam as arboviroses (doenças causadas por vírus transmitidos por artrópodes) causadas por mosquitos e sua relação com as mudanças climáticas no Instituto Butantan.
E que anos depois, em 2023, receberia uma menção honrosa no 2º Global Summit on Advances in Earth Science and Climate Changes, em Londres, na Inglaterra, e entraria na prestigiosa lista World's Top 2% Scientists, da Universidade Stanford, que elenca os 2% dos cientistas mais citados em suas respectivas áreas de atuação no mundo.
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A pesquisadora Camila Lorenz mostra larvas do mosquito Aedes aegypt no Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan
“Fiquei muito feliz e honrada com os dois reconhecimentos. Eles representaram o impacto e a relevância das pesquisas que venho desenvolvendo ao longo dos anos. Também são um incentivo para continuar produzindo ciência e formando alunos”, afirma.
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Camila Lorenz recebe menção honrosa pelo seu trabalho no 2º Global Summit on Advances in Earth Science and Climate Changes, em Londres, na Inglaterra
Hoje, aos 37 anos, Camila Lorenz é Jovem Pesquisadora pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), bolsa concedida a pesquisadores com excelente histórico de produção científica de inserção internacional.
Por meio do projeto, conduzido no laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan, Camila orienta 11 alunos – de iniciação científica ao pós-doutorado – que fazem estudos multidisciplinares de biologia e epidemiologia, envolvendo pesquisas que coletam dados sobre genética, ecologia e saúde pública.
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Camila Lorenz orienta 11 alunos no Laboratório de Parasitologia dentro do projeto Jovem Pesquisador Fapesp
A reunião dessas informações associadas a dados de satélite e amostras de vírus tornam-se mapas de arboviroses, essenciais para a vigilância da circulação de arbovírus como dengue, Chikungunya, Zika, entre outros no estado de São Paulo.
A paixão de Camila Lorenz pelos insetos foi alimentada por uma influência marcante da cultura pop científica dos anos de 1990: a revista "Mini Monstros", da editora Globo. A publicação vinha acompanhada de peças para montar réplicas de aranhas e escorpiões gigantes, e semanalmente era aguardada pelos irmãos. O olhar investigativo sobre a evolução dos seres vivos sedimentou o seu caminho para a biologia.
“Eu colecionava as revistas e isso meio que despertou o meu interesse pelos insetos. Eu e meu irmão ficávamos a tarde inteira caçando bichinhos no quintal e fazendo uns ‘viveirinhos’ para formigas e grilos”, recorda.
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Camila segura amostra na qual é possível ver três estágios do ciclo de vida dos mosquitos: larva, pupa e adulto
Essa fase lúdica consolidou uma certeza: o desejo de entender como se dá a evolução de organismos vivos. “Eu sempre gostei de saber como os seres vivos funcionam. Eu tinha que ser bióloga, não tinha como me tornar outra coisa”, ressalta.
Apesar da vocação, o caminho até a universidade pública exigiu estratégia. Aluna de escola pública durante os ensinos fundamental e médio, Camila sentiu a necessidade de reforçar seus conhecimentos para enfrentar o concorrido vestibular da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela ingressou no "terceirão" de um cursinho particular em Curitiba, enfrentando uma rotina puxada de simulados e aulas intensivas de química, biologia e física para suprir as lacunas da grade escolar normal.
Todo o esforço foi recompensado com a aprovação no curso de Biologia em 2006, aos 18 anos. Ao olhar para trás, Camila faz questão de destacar um ponto que considera crucial: o suporte de sua família neste processo.
“Eu tive o privilégio de só poder estudar. Meus pais sempre me deram esse respaldo, eu nunca precisei trabalhar para contribuir com a conta da casa”, afirma com consciência social. Para ela, esse apoio permitiu a dedicação total que muitos de seus colegas, em dupla jornada, não podiam ter. “Todas as conquistas que eu tenho, eu agradeço muito a eles”, reforça.
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Ao concluir a graduação em 2009, Camila enfrentou a dúvida comum a muitos jovens recém-formados: seguir no mercado de trabalho ou na vida acadêmica. Em 2010, uma resposta mudou seu destino, quando o professor e pesquisador científico do Laboratório de Parasitologia do Instituto Butantan Lincoln Suesdek ofereceu uma vaga para ela trabalhar com microevolução de mosquitos na instituição centenária.
O tema unia as duas grandes paixões de Camila: insetos e evolução, disciplina pela qual ela se apaixonou durante a faculdade, graças aos excelentes professores que teve. Aos 22 anos, a bióloga deixou a capital paranaense pela primeira vez para encarar o desafio de viver na metrópole paulistana. “Nunca tinha saído de Curitiba, mas hoje eu adoro essa agitação de São Paulo”, afirma.
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Larvas do mosquito Aedes aegypti
No Butantan, ela encontrou não apenas um laboratório, mas uma nova casa e um “pai científico”, como ela gosta de descrever o pesquisador Lincoln Suesdek. “Ele me acolheu e me inseriu no mundo da genética populacional de mosquitos, o que foi essencial para a minha carreira”, conta com gratidão.
Junto à sua chegada ao Butantan, Camila Lorenz continuou seus estudos e acumulou uma robusta trajetória acadêmica, com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP), onde estudou mosquitos neotropicais e suas relações filogenéticas. No pós-doutorado em epidemiologia pela Faculdade de Saúde Pública da USP, estudou as relações da paisagem urbana com o vetor Aedes aegypti.
“Na USP tive um outro mentor, que me fez enxergar o valor das colaborações científicas: o professor Francisco Chiaravalloti Neto”, afirma Camila, mostrando-se sempre grata aos profissionais que cruzaram o seu caminho.
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Camila com alunos e pesquisadores durante trabalho de campo para coleta de mosquitos
Em 2024, após idas e vindas para a submissão de um projeto à agência de fomento paulista, Camila retornou ao Instituto Butantan como Jovem Pesquisadora FAPESP, estabelecendo seu próprio grupo no Laboratório de Parasitologia.
Para ela, os mosquitos são modelos ideais para a sua atual linha de estudo, devido ao seu ciclo de vida acelerado. “Conseguimos ver essa evolução, como eles mudam, como que o ambiente influencia essas mudanças ou como que os genes deles vão mudando ao longo do tempo”, explica de forma didática o conceito de microevolução.
Hoje, seu projeto principal investiga a circulação de arbovírus no estado de São Paulo, abrangendo doenças como dengue, Zika, chikungunya e o vírus do Nilo Ocidental (West Nile) com base no conceito de "Saúde Única" (One Health), que entende que a saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde animal e ambiental.
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Amostra de larvas de Aedes aegypti
Para mapear o risco de surtos, a equipe de Camila analisa diversas frentes de origem animal. A primeira é pela coleta de mosquitos no campo, para entender se eles carregam determinados tipos de vírus; depois, também são avaliadas aves silvestres em pontos de parada para verificação de carga viral e se estão trazendo vírus de outras regiões; por fim, é feita a análise de cavalos, que servem como sentinelas ideais.
“O equino é um modelo interessante porque ele fica circulando pelo pasto por muitos anos. Se ele for picado em algum momento da vida, conseguimos recuperar pela sorologia”, esclarece a pesquisadora.
Outra frente de trabalho é feita pelo engenheiro da equipe, que analisa o uso do solo e o desmatamento para prever onde o contato entre humanos e animais silvestres pode gerar transbordamentos virais.
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Liderar os 11 alunos e gerir orçamentos de pesquisa exige jogo de cintura e, às vezes, soluções inusitadas. Camila Lorenz compartilha um exemplo clássico de como a ciência brasileira usa a criatividade para alcançar grandes resultados.
Para garantir que o RNA do vírus incubado no mosquito não se degrade, o inseto deve ser mantido em temperaturas baixíssimas. O equipamento padrão para isso é uma "mesa fria", que custa cerca de R$ 30 mil, um valor alto demais para o projeto. A solução encontrada foi genial: a compra de uma máquina de sorvete que custava seis vezes menos (R$ 5 mil).
“A temperatura da máquina chega a menos 20 graus e dá para lidar com o mosquito na boa. Temos que improvisar com responsabilidade e pensar em economizar dinheiro”, diverte-se a pesquisadora.
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Camila Lorenz durante trabalho de campo no Parque Estadual da Cantareira, em São Paulo
Fora do laboratório, Camila Lorenz é uma entusiasta da vida cultural paulistana. Se no início São Paulo a assustava, hoje Curitiba parece "parada" demais para o seu ritmo. Ela mora com o namorado, Cristiano, com quem explora roteiros de cafés na avenida Paulista e visitas ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), ambos na região central.
Outra grande paixão pessoal é o rock pesado. Fã de bandas internacionais, ela aproveita a rota de shows da capital paulista para ver seus ídolos de perto. Frequentadora assídua de festivais como o Monsters of Rock, ela já assistiu a shows do Dream Theater e Guns N' Roses, e já tem planos para o próximo do Iron Maiden.
“Essa parte cultural é o melhor de São Paulo”, afirma.
As viagens também ocupam um lugar central em sua vida. O gosto por desbravar o mundo começou em 2012, em um congresso na França. De lá para cá, já conheceu a Patagônia e enfrentou "perrengues" gelados no Deserto do Atacama, onde a água dos canos chegou a congelar.
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"Parente": Camila ao lado de pintura do artista alemão Peter Lorenz na parte oriental do Muro de Berlim
“Na altitude faz frio para caramba, apesar desses extremos, valeu super a pena”.
Outra viagem marcante foi à Alemanha, país que sua família carrega na descendência e no sobrenome Lorenz, herdado de seu pai. Após finalizar um estágio em Leuven, na Bélgica, em 2025, Camila aproveitou para visitar algumas cidades europeias a passeio, antes de voltar ao Brasil.
“Achei uma pintura de um ’parente’ no muro de Berlim, que tinha o mesmo sobrenome que eu”, brinca.
A obra do pintor alemão Peter Lorenz está exposta na East Side Gallery, o lado leste do Muro de Berlim – a parte oriental foi demolida em 1989 –, que se transformou em uma galeria a céu aberto com mais de 100 pinturas de artistas de todo o mundo.
Para Camila, o papel do cientista não termina na publicação de um artigo acadêmico. Entusiasta da divulgação científica, ela já lançou dois livros paradidáticos sobre mosquitos e mudanças climáticas para adolescentes.
“Se as pessoas não conhecem o que fazemos, elas não valorizam. O trabalho de traduzir a informação científica que o Instituto Butantan faz é essencial”, conclui.



