Reportagem: Geyza Melo
Fotos: José Felipe Batista e Renato Rodrigues
No Dia Internacional da Mulher (8/3), a Plataforma Zebrafish do Instituto Butantan lança o projeto “A Ciência no feminino: explorando o Zebrafish”, iniciativa que busca aproximar meninas de 13 a 17 anos, de escolas públicas e privadas da cidade de São Paulo e região, de vivências em laboratório e características do universo da ciência.
Um dos objetivos da idealizadora do projeto, a pesquisadora científica do Laboratório de Toxinologia Aplicada (LETA) Monica Lopes Ferreira, é colocar a ciência como uma possibilidade de carreira futura para meninas. Nesse sentido, a Plataforma Zebrafish, dedicada ao estudo do peixe conhecido como zebrafish ou paulistinha (Danio rerio), funciona como uma porta de entrada para as áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
“Na tecnologia, por exemplo, usamos microscópios e softwares para observar o movimento do peixe, a atividade do coração, além de equipamentos específicos para estudar o animal. A engenharia está nas estruturas e nos sistemas onde o zebrafish é criado. E a matemática está em tudo, desde os cálculos para o acasalamento até a contagem de embriões e o percentual de sobrevivência”, explica.
Escolas interessadas na iniciativa podem entrar em contato com a equipe da Plataforma Zebrafish (plataforma.zebrafish@butantan.gov.br). O projeto é aberto a instituições de ensino públicas e privadas, com observações em laboratório e atividades em ambiente escolar.
O zebrafish, também conhecido como paulistinha, é um peixe pequeno de água doce que se assemelha em 70% com o ser humano – em relação a certas doenças, chega a ter uma semelhança de 84%. Por essa razão, ele é utilizado como modelo experimental em pesquisas científicas, podendo substituir antigos modelos animais tradicionais, como ratos e camundongos.

A pesquisadora Monica Lopes Ferreira coordena a Plataforma Zebrafish e idealizou o projeto
Segundo Monica, o contato inicial com um espaço de pesquisa costuma provocar uma mudança imediata na forma como as pessoas enxergam a ciência. “O primeiro impacto é o encantamento. Elas entram no laboratório, conhecem o que a gente faz e passam a entender que também podem ocupar esse espaço”, explica.
Essa é uma percepção que a pesquisadora tem a partir de suas próprias experiências profissionais. Ainda na graduação em Biologia, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), ela teve seu primeiro contato mais próximo com a ciência ao participar de um curso de imunologia ministrado pelo pesquisador do Instituto Butantan Ivan da Mota.
Ao compreender, na prática, como funcionam as defesas do corpo humano, ela se reconheceu naquele caminho. “Eu me vi encantada. Pensei: ‘é disso que eu gosto’”, relembra.
O interesse levou à aprovação em um estágio no Instituto Butantan, experiência que consolidou a decisão de seguir carreira científica. “Aquela ciência que eu via na teoria passou a ser viva, no experimento, na bancada”, conta. Hoje, são mais de três décadas dedicadas à pesquisa no Instituto.

Além do objetivo de formar futuras cientistas, o projeto “A Ciência no feminino: explorando o Zebrafish” busca apresentar diferentes possibilidades de atuação dentro e fora da pesquisa. No laboratório, as participantes irão entender a ciência como um campo aberto, integrado a diferentes interesses. “Queremos que essas meninas entendam que podem ocupar esse espaço, que deem o primeiro passo, que não tenham receio”, resume Monica.
Outras iniciativas de divulgação científica realizadas pela Plataforma Zebrafish já comprovaram o potencial desse contato. Ao final delas, os estudantes escrevem cartas contando sobre a experiência no laboratório. Em um dos registros, uma criança contou que, apesar de não querer seguir carreira científica, passou a se imaginar como ilustradora – após contato com um dos seis livros utilizados na atividade da qual participou. Em outro relato, uma estudante destacou a representatividade do encontro: “Eu sempre sonhei que podia, mas não sabia que podia”.
Para Mônica, é esse o impacto que ela busca provocar. “Eu quero que a menina olhe no espelho e pense: ‘eu posso’”, afirma.
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O uso do zebrafish no Instituto Butantan surgiu a partir da busca por um modelo experimental que já vinha se destacando em instituições de referência, tanto nacionais como internacionais. Com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a pesquisa sobre o animal passou a integrar o Centro de Toxinas, Resposta Imune e Sinalização Celular (CeTICS).
Mais do que ampliar as possibilidades de pesquisa, a escolha do zebrafish também abriu caminho para aproximar a ciência da sociedade. Nesse contexto, surgiram iniciativas como a Plataforma Zebrafish, criada em 2015, que reúne atividades voltadas ao público, e projetos como o Paulistinha Chega às Escolas, que leva o conhecimento científico para dentro das salas de aula.
As ações dialogam com um princípio que orienta o trabalho desenvolvido ao longo dos anos: a ideia de que a ciência precisa ser acessível e compartilhada. “Para mim, ciência só é ciência quando ela é compartilhada com a sociedade”, afirma Mônica.
Ao longo de uma década, o Instituto Butantan se consolidou como uma das referências no uso do zebrafish no Brasil. A Plataforma Zebrafish já motivou a publicação de mais de 30 artigos científicos, promoveu cursos de capacitação e impactou diretamente a formação de mais de mil pesquisadores.



