Você no Butantan: Valdir Germano

 

Com 31 anos de casa, o técnico de apoio à pesquisa científica e tecnológica do Laboratório Especial de Coleções Zoológicas (LECZ), Valdir José Germano, 55, é o nosso convidado nesta edição do Você no Butantan. 

Muito querido pelos colegas e pelos alunos que frequentam o LECZ, ele se tornou um verdadeiro “guru” da herpetologia no Butantan, mesmo sem formação acadêmica.

Emocionado, Valdir nos falou um pouco sobre o seu trabalho e como superou as dificuldades e o medo de cobras no início da sua carreira. O incentivo que recebeu de sua mãe foi fundamental para continuar na profissão. “Se eu não tivesse a minha mãe naquele momento, não tinha passado todo esse tempo trabalhando em herpetologia na instituição”, contou.

São-paulino e amante de futebol, ele faz parte do time do bairro para jogadores com mais de 50 anos e representa o Butantan na categoria sênior dos Jogos Sindusfarma. Sem modéstia, garante que o time da instituição tem hegemonia no campeonato.

Butantan Notícias - Como começou a trabalhar no Butantan?

Valdir Germano - Eu comecei a trabalhar no Butantan exatamente no dia 1º de julho de 1988. Na época estava desempregado, casado e a primeira das minhas três filhas já tinha nascido. Uma vizinha falou para a minha mãe de um concurso no Butantan para auxiliar-técnico de laboratório, que era o nome do cargo na época. Eu prestei e passei.

Demorou um pouco para ser chamado e, nesse ínterim, eu trabalhei como motorista e depois numa loja atacadista de tecidos. Até que ligaram convocando para uma entrevista, eu fiz a entrevista e vim trabalhar aqui. Fiquei muito feliz, porque o salário era muito bom e porque isso significava estabilidade para mim e para a minha família.

E aí começam as histórias bizarras, umas engraçadas e outras desesperadoras. Porque assim que cheguei no Butantan me perguntaram se eu gostava de “bichinhos”. Eu logo associei a ratinhos e coelhinhos, que eram alimentos da cobra, e eu tinha na minha cabeça que o Butantan não era só cobra pelas visitas que tinha feito ao parque antes de trabalhar aqui. Mas quando me encaminharam para herpetologia, para a área de manutenção de serpentes, e eu vi aquelas prateleiras com potes grandes, cheios de cobras, e depois aquele monte de cobra passando de um lado pro outro na sala em ganchos de manipulação... Eu não tinha ideia desse mundo com o qual trabalho hoje, eu não sabia nem pronunciar “herpetologia”! Eu tinha muito medo de cobra!! Mas a diretora do laboratório na época me explicou que eu passaria primeiro por uma preparação para então avaliar se eu tinha aptidão para o trabalho.

No começo, eu passei por muitas dificuldades. Não só pelo medo, mas também por não ter uma formação acadêmica. Mas todas elas foram um aprendizado importantíssimo para mim, tanto no social, com os colegas, mas especialmente na segurança para realizar o meu trabalho. Hoje eu uso essa passagem da minha vida para motivar todos os alunos que vêm trabalhar aqui. Eles adoram que eu divida essa experiência com eles e, de uma certa forma, eu acabo colhendo bons frutos com isso.

Na época eu cheguei a chorar algumas vezes e minha mãe nunca me deixou esmorecer. Ela foi minha base forte. Se eu não tivesse a minha mãe naquele momento, não tinha passado todo esse tempo trabalhando em herpetologia na instituição. Ela, inclusive, chegou a trabalhar aqui, minha irmã também, ambas concursadas. Elas passaram pela área de produção e pela creche.

BN - E como você foi para a área de coleções? Em que consiste o seu trabalho atualmente?

VG - Eu sempre trabalhei nessa área. Era uma estrutura diferente, as atividades eram diferentes, mas sempre na área de coleções herpetológicas. 

Duas pessoas foram importantíssimas na minha história aqui no Butantan, uma delas foi um técnico chamado Joaquim Conselheiro, que começou a apostar em mim, via como eu trabalhava, que eu aproveitava as oportunidades que me eram dadas e que eu tinha uma facilidade no trabalho de identificação. Outra pessoa foi o Giuseppe Puorto, que na época era o biologista responsável pela coleção. Eles me deram a oportunidade de atuar na coleção, o que na época era bem difícil, porque os dois eram bastante exigentes.

Então, pela manhã eu trabalhava no biotério e à tarde eu ficava na parte de recepção e coleção de animais. E eu comecei a conversar muito com o Joaquim, que na época tinha uma carreira reconhecida mundialmente, e aprender muita coisa, muita coisa mesmo. E isso foi até o momento da sua aposentadoria, quando ele me passou algumas orientações que sigo até hoje no trabalho aqui e eu passei a dividir a responsabilidade operacional de cuidar da coleção com o curador da época.

Hoje eu faço parte de um grupo de gerenciadores da coleção herpetológica. Especificamente na recepção dos animais, na preparação do acervo para ser inserido na coleção, com todas as especificações, na manutenção da coleção e no treinamento de taxonomia dos alunos de graduação, pós-graduação, mestrado e até voluntários que frequentam a instituição, além de dar um suporte para os colegas daqui.

Na nossa coleção temos todo o material que é utilizado cientificamente. Antes de ir para o nosso acervo, existe todo um processo de coleta de informação biológica e do seu material genético, que é usado para estudos moleculares.

BN - O que gosta de fazer nas horas de lazer?

VG - Eu adoro jogar futebol! Sou são-paulino e de vez em quando até pego uma das minhas meninas, porque as três são-paulinas também, para ir ao estádio, embora não com tanta frequência.

Mas eu jogo futebol no meu bairro, Jardim Santa Tereza, no Embu das Artes, onde, por sinal, sou conhecido como homem das cobras (risos). Faço parte da direção do time, o Master do Jardim Santa Tereza, que é pra quem tem mais de 50 anos.

Sou doente por futebol! Aliás, conheci a minha esposa jogando futebol. Ela era amiga da minha irmã e começamos a conversar quando ela foi me ver jogar. Nesses 32 anos casados, sempre joguei e minha esposa sempre foi muito maravilhosa, nunca me impediu de jogar.

Inclusive, participo dos jogos Sindusfarma representando o Butantan na categoria sênior, onde temos uma certa hegemonia. Daqui duas semanas começamos a disputar o campeonato e já estamos treinando.

Além disso, gosto muito de sair com a família. Somos bastante religiosos e todo fim de semana vamos à igreja.

BN - O que o Butantan representa para você?

VG - Eu acho que posso resumir o que o Butantan representa para mim em duas palavras: oportunidade e satisfação.

A oportunidade vem desde o momento em que passei no concurso até o fato terem me aberto portas aqui dentro, por gostarem de mim e do meu trabalho. Além da oportunidade também de ter tido acesso ao conhecimento sobre a cobra e a ler trabalhos científicos, foi aí que o medo deu lugar à fascinação por esse animal.

A satisfação é por estar nessa instituição, por sempre conhecer pessoas novas e por trabalhar sempre de bem com a vida e sorrindo. Dificilmente fico mal-humorado ou bravo. O pessoal aqui é muito bacana comigo sempre e me recebe com o sorriso aberto.

 

(por Luana Paiva)