Você no Butantan: Jacqueline Mazzuchelli de Souza, Tecnologista de Laboratório de Desenvolvimento Nível 2

Amante de teatro e Chico Buarque, a mineira Jacqueline Mazzuchelli de Souza, 33, é colaboradora do Instituto Butantan há 10 anos. Formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Alfenas (MG), Jacqueline veio para São Paulo no dia seguinte de sua formatura e, desde então, atua no Laboratório de Genética do IB.

Em conversa com o Butantan Notícias, ela falou um pouco sobre o trabalho que realiza no estudo do vírus causador do câncer de colo de útero, sobre sua paixão por teatro, trabalho voluntário e viagens.

Butantan Notícias - Conte sobre sua trajetória profissional. Como ingressou no Butantan?
Jacqueline Souza - Eu me formei em biologia, na Universidade Federal de Alfenas, em 2008. Minha festa de formatura aconteceu em janeiro de 2009, em um sábado, no domingo, dia seguinte, vim para São Paulo, com o cabelo todo arrumado ainda, duro de laquê, para fazer a prova do Instituto Butantan, que na verdade, naquela época era o PAP (Programa de Aprimoramento Profissional), da extinta Fundap (Fundação de Desenvolvimento Administrativo). A prova já foi direcionada para genética, depois que passei, cheguei a passar por alguns laboratórios, mas fiquei no da Rita de Cassia Stocco, que é o Laboratório de Genética, onde estou atuando até hoje. Além do PAP, fiz também mestrado e doutorado em biotecnologia na USP, sempre por orientação da Dra. Rita de Cassia Stocco. Também tive a oportunidade de estudar na França, quando soube que o Instituto Butantan e o Instituto Pasteur fariam uma parceria, aproveitei a oportunidade e me inscrevi para o curso de Vacinologia, que acontece em Paris. Eles selecionam apenas 30 pessoas do mundo inteiro e fui uma dessas selecionadas. Foi um mês de curso bem intenso, mas uma experiência muito gostosa. E também fiz uma parceria com uma pesquisadora do Sul, para trabalhar com a parte de bioinformática, mas resumindo eu sempre trabalhei com papiloma vírus, tanto em humanos, que é o HPV, quanto com o papiloma vírus bovino, que é o BPV. Hoje sou contratada como Tecnologista do Laboratório de Desenvolvimento Nível 2.

BN - Você mencionou que desde 2009, trabalha no Laboratório de Genética, com papiloma vírus bovino e humano. Por que esse vírus é tão importante? 
Jacqueline - Eu trabalho em uma linha de pesquisa onde eu estudo um vírus, que é bem particular: o papiloma vírus. Ele infecta diversos animais e até humanos. É bastante conhecido pois é o agente causador do câncer de colo de útero, um dos grandes problemas de mortalidade em mulheres no Brasil e no mundo.
No Laboratório, nós trabalhamos também com o papiloma vírus bovino, que é bem parecido com o humano, ele causa verrugas, deixando o animal bastante debilitado. O papiloma vírus bovino serve de modelo de estudo para o papiloma que infecta os humanos, nós trabalhamos também na parte de diagnóstico, então, às vezes, somos procurados por pecuaristas e fazendeiros que têm perda de couro e de leite O papiloma vírus bovino afeta muito o animal leiteiro, então aparecem essas verrugas e o animal fica bem debilitado e, na parte humana, nós estudamos o vírus principalmente para o desenvolvimento de vacinas. É um vírus que tem uma grande importância mundial na área da saúde.

BN- Como esse trabalho se integra ao Instituto Butantan?
Jacqueline - Apesar de estarmos dentro da genética, nós trabalhamos em uma área que tem uma frente biotecnológica, que vai desde o entendimento da genética do vírus, do DNA desse vírus, até a produção de proteínas virais, e digo biotecnologia porque não trabalhamos com a proteína do vírus em si. Nós fazemos com que bactérias produzam proteínas que o vírus produziria naturalmente e essas bactérias podem ser úteis para o desenvolvimento desde vacinas profiláticas, para prevenção, até terapêuticas, para tratamento. Por muito tempo, nós trabalhamos com o papiloma vírus bovino e muita coisa que conseguimos entender pode hoje se aplicar também no entendimento do vírus que infecta os humanos. Junto com isso, tem todo um estudo feito, como bioinformática, que dá um direcionamento para nós, auxiliando no entendimento dos resultados e direcionando aos próximos passos.

BN-Há algum projeto futuro, alguma conquista recente que mereça ser relembrada?
Jaqueline - Nós continuamos trabalhando focados no desenvolvimento de vacinas de HPV e PBV.
Uma coisa muito legal realizada a partir do diagnóstico bovino recentemente, é que o último artigo publicado por nós, foi sobre a primeira vez no mundo em que vimos o vírus que infecta bovinos infectando ovinos.

BN - E nas horas vagas, o que você gosta de fazer?
Jacqueline - Desde que cheguei em São Paulo, há dez anos, eu estudo teatro. Gosto muito dessa parte cultural, já atuei, fiquei sem bolsa e vivi do teatro. Atualmente estou fazendo um curso na SP Escola de Teatro, que é uma referência. E também faço um trabalho voluntário na cidade onde nasci, em Maria da Fé (MG). Uma vez por ano dou uma oficina de teatro com o apoio da prefeitura. Além disso, eu e minha irmã abrimos uma empresa lá, então, aos finais de semana, eu vou bastante para Minas para cuidar disso. Nós abrimos uma franquia da Chilli Beans. E claro, eu amo viajar!

BN - Qual o seu estilo musical?
Jacqueline - Minha referência é Chico Buarque, eu gosto muito do trabalho dele. 

BN- O que o Butantan representa em sua vida?
Jacqueline - O Butantan é um misto de sensações na minha vida. É o que tenho de referência profissional, pois desde que eu me formei, ele me deu um norte. É um lugar de possibilidades: possibilidade de estudar, de trabalhar, de se desenvolver profissionalmente e de enxergar que a sua pesquisa, ela pode sim, se tornar um produto. Ele te dá uma visão profissional do começo ao fim.

 

 

 

 

 

 

(por Fernanda Ribeiro)