Novas espécies de aranha-marrom são descritas por pesquisador do IB

Artigo publicado pelo pesquisador Rogério Bertani, do Laboratório Especial de Ecologia e Evolução do IB, identificou e descreveu (taxonomia) novas espécies de aranhas encontradas e coletadas em cavernas de Minas Gerais e Bahia pelos bioespeleólogos do Laboratório de Estudos Subterrâneos da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Maria Elina Bichuette, Diego M. von Schimonsky e Jonas E. Gallão.

Dentre as novas espécies catalogadas, estão: Loxosceles cardosoi, Loxosceles carinhanha, Loxosceles ericsoni e Loxosceles karstica.

As descobertas contribuem para o conhecimento de aranhas de importância para a saúde pública, devido ao efeito de seu veneno em seres humanos. O trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

As Loxosceles (nome científico da aranha-marrom) são aranhas encontradas sob rochas, debaixo de cascas e buracos de árvores, cavernas, bambuzais e fendas naturais em barrancos. São encontradas também dentro de residências, onde se abrigam atrás de móveis, quadros, portas, frestas nas paredes e lugares escuros, como pilhas de madeira, tijolos e telhas.

O efeito de seu veneno varia entre uma leve dor no local, até necrose do tecido picado, feridas grandes e profundas, ou até vermelhidão pelo corpo, febre, mal-estar, náuseas e vômitos.

Com as novas espécies registradas, o Brasil passa a ter oficialmente 18 espécies de aranha-marrom existentes em seu território. Foram catalogadas, até o momento, 134 espécies em todo o mundo. Neste bate-papo com o Butantan Notícias, Rogério Bertani conta sobre os bastidores da pesquisa e as descobertas que ajudou a registrar.

Butantan Notícias: Quando aconteceu a pesquisa em campo? Quantos dias durou? Quem participou?

Rogério Bertani: Os espécimes foram coletados pelos colegas da Universidade Federal de São Carlos, do Laboratório de Estudos Subterrâneos. O projeto é da Profa. Dra. Maria Elina Bichuette, com seus alunos de pós-graduação e agora doutores Diego M. von Schimonsky e Jonas E. Gallão. Eles são bioespeleólogos, estudam a fauna de cavernas e coletam material para estudos, encaminhando para especialistas os espécimes de grupos taxonômicos que não dominam e, no caso, foram encaminhadas para mim. Essas aranhas foram coletadas em 2012 e somente publicadas agora pois foi necessário triar os espécimes, encaminhar para especialistas e, após análise e conclusão de que se tratavam de espécies novas, a preparação das descrições e publicação dos resultados, o que só ocorreu em dezembro de 2018.

Quanto tempo levaram para concluir o estudo e descrição das espécies?

RB: Da coleta dos espécimes até a publicação, seis anos aproximadamente, devido a todo o processo.

Qual o significado de cada nome dado às novas espécies?

RB: Uma das espécies novas chama-se Loxosceles cardosoi em homenagem ao ex-diretor do Hospital Vital Brazil (HVB), Dr. João Luiz Costa Cardoso, que atendeu durante muitos anos no HVB e publicou diversos trabalhos sobre tratamento de acidentados por animais peçonhentos, incluindo um dos principais livros sobre animais peçonhentos brasileiros.

Loxosceles ericsoni homenageia o espeleólogo Ericson Cernawsky Igual, do Grupo Pierre Martin de Espeleologia, pela sua contribuição ao estudo espeleológico no Brasil.

Loxosceles karstica tem esse nome devido ao ambiente cárstico, que são regiões onde as características geológicas permitem o surgimento de cavernas. O nome foi dado pela presença de exemplares dessa espécie nesses ambientes. Já a Loxosceles carinhanha foi denominada com o nome da cidade onde foi encontrada a espécie, o município de Carinhanha, no estado da Bahia.

Quais as características dessas novas espécies?

RB: As Loxosceles descritas em nosso artigo são troglófilas, ou seja, vivem dentro e fora das cavernas em ambientes abrigados da luz, como frestas de paredões rochosos ou debaixo de pedras. Porém, os ambientes cavernícolas oferecem condições excelentes para elas, e, nesses locais, as populações podem ser muito altas, como ocorre com as espécies descritas no trabalho.

Nenhuma das novas espécies são troglomorficas, isto é, não são encontradas exclusivamente em cavernas nem possuem características como redução do tamanho dos olhos ou apêndices alongados que normalmente são encontrados em animais que vivem exclusivamente em ambientes subterrâneos. Existe somente uma única espécie de Loxosceles troglomorfa no Brasil, descrita também no ano passado.

Das 18 espécies de aranhas-marrons que estão pelo Brasil, a maior parte está na natureza ‘intocada’ ou em áreas habitadas pelo ser humano?

RB: Duas espécies principais costumam ocorrer dentro de habitações humanas. A Loxosceles laeta, que foi introduzida no Brasil e em várias partes do mundo, tendo sua origem no Chile e Peru, e a Loxosceles intemedia, que contém populações altíssimas nos estados da região sul, principalmente em Curitiba, onde causam milhares de acidentes todo ano. Em São Paulo temos principalmente a Loxosceles gaucho que não costuma entrar tanto nas casas, e, portanto, causam menos acidentes. No nordeste há a Loxosceles amazonica que tem alguns acidentes registrados.

Potencialmente, toda espécie de Loxosceles pode causar acidentes parecidos, o que também deve ocorrer com as novas espécies. Porém, pelo contato com as pessoas ser muito pequeno, por viverem principalmente em cavernas, os acidentes causados pelas novas espécies devem ser raros ou mesmo inexistentes. Contudo, à medida que novas regiões do Brasil com baixa densidade populacional começam a ser colonizadas e novas cidades surgem, a população começa a ter contato com esses animais, o que pode se tornar um problema no futuro. Mas não há forma de prever se irão se tornar um problema ou continuarão a viver sem serem notadas pelos habitantes da região.

A partir de agora essas novas espécies entram para o registro oficial de Loxosceles de conhecimento de todos os pesquisadores do mundo?

RB: Existe um catálogo online contendo todas as espécies de aranhas do mundo e com links para se baixar os artigos. Esse catálogo já foi atualizado e as novas espécies já fazem parte dessa lista (que pode ser acessada neste link https://wsc.nmbe.ch/family/88/Sicariidae). Com a descoberta dessas novas espécies, o Brasil conta agora com 18 espécies. Apesar da importância para a saúde pública, as Loxosceles são ainda muito mal conhecidas em diversos aspectos e a contribuição deste trabalho é importante nesse sentido, de aumentar o conhecimento e entender a evolução das espécies desse gênero que tem ampla distribuição mundial e causa sérios acidentes em seres humanos.

 

(por Caroline Roque)