Grupo de pesquisadores do Butantan recebe o prêmio Global 3Rs
Este ano, um dos quatro vencedores foi o trabalho An alternative micromethod to access the procoagulant activity of Bothrops jararaca venom and the efficacy of antivenom publicado em 2014 no periódico Toxicon, que contou com a colaboração de pesquisadores de vários laboratórios do Instituto Butantan. O prêmio, concedido pelo IQ Consortium e a AAALAC International, foi recebido pela Dra. Nancy Oguiura, que representou os pesquisadores na cerimônia realizada em 4 de novembro na cidade de Phoenix, nos Estados Unidos. Além da Dra. Nancy, integram a equipe os pesquisadores Josana Kapronezai e Thayane Ribeiro do Laboratório de Ecologia e Evolução; Marisa M.T. Rocha do Laboratório de Herpetologia; Carlos R. Medeiros do Hospital Vital Brazil; José R. Marcelino do Serviço de Imunologia e Benedito C. Prezoto do Laboratório de Farmacologia.

A AAALAC - Association for Assessment and Accreditation of Laboratory Animal Care é uma organização privada internacional e sem fins lucrativos que incentiva, na ausência de alternativas, tratamento mais humano e digno aos animais de laboratório na pesquisa científica. Mais de 950 empresas, universidades, hospitais, agências governamentais e outras instituições de pesquisa em 41 países participam do programa, além de colaborar na elaboração de leis municipais, estaduais e federais que regulamentam o uso de animais em pesquisa científica.

Em nome do comitê de seleção do Global 3Rs Awards, o diretor executivo da AAALAC International, Dr. Christian E. Newcomer, destacou que o trabalho preencheu com fidelidade os critérios para participação neste prestigioso programa, podendo ser considerado como uma contribuição inovadora direcionada aos 3Rs da pesquisa científica com modelos animais.

Segundo o Dr. Benedito C. Prezoto, o objetivo primordial do trabalho era a adaptação do rotineiro teste da dose coagulante mínima do veneno da Bothrops jararaca para o aparelho de tromboelastometria rotacional ROTEM, ensaio realizado por meio da utilização do plasma de mamíferos. Contrariamente ao que acontece em amostras de plasmas de mamíferos, a dinâmica da formação de fibrina em plasma recalcificado de aves (em especial o da galinha doméstica) é extremamente lenta (aproximadamente 30 minutos). A substituição do plasma de mamíferos pelo da galinha doméstica e a realização deste ensaio de coagulação no aparelho de tromboelastometria rotacional possibilitou a confecção de uma curva dose-resposta, na qual o plasma de galinha foi considerado o órgão-alvo, o veneno da Bothrops jararaca o agonista e o soro antibotrópico o antagonista. Assim, foi possível determinar a potência relativa de algumas partidas de soro antibotrópico em sua capacidade de neutralização da atividade pró-coagulante deste veneno.

A avaliação da capacidade dos antissoros na neutralização da atividade letal de venenos de serpentes é rotineiramente realizada através do teste de letalidade em camundongos. Este ensaio é usualmente cansativo, caro, requer quantidades significativas de veneno e animais, além de provocar a sensação de dor devido à injeção do veneno. Em contrapartida, a coleta de amostras sanguíneas na galinha doméstica adulta (até 15 mL em cada asa) revelou-se uma técnica descomplicada, não produzindo stress significativo para o animal.

O impacto do presente trabalho pode ser a utilização desta metodologia para a avaliação da potência relativa de antissoros na inativação dos venenos correspondentes, diminuindo a necessidade do uso de animais nas etapas intermediárias do processo da produção do antissoro. Esta estratégia pode ser estendida à produção de antissoros contra outros venenos com atividade pró-coagulante in vitro (tal como o da lagarta Lonomia obliqua). Estudos estão sendo conduzidos para a padronização da técnica na avaliação de venenos com atividade anticoagulante in vitro, tais como o da abelha Appis mellífera e da serpente Crotalus durissus terrificus, que possuem altas quantidades de substância anticoagulante semelhante à fosfolipase 2.​