Biblioteca do Butantan tem livros encadernados com pele de cobra

Henrique Canter abre o armário que fica dentro de sua sala e retira de lá um livro de capa verde, com detalhes em ocre (uma variação da cor laranja). Sem pressa, coloca a obra em cima da mesa. É a edição francesa de “A Defesa contra o Ofidismo”, de Vital Brazil. Ele olha com admiração para a raridade que tem nas mãos, publicada na França em 1914. Três anos antes, o livro fora lançado no Brasil, compilando o amplo conhecimento do médico sobre as cobras brasileiras e seus venenos.

“Esse exemplar é meu, a capa é de pele de cascavel”, exibe Canter, que hoje é diretor da Casa Afrânio do Amaral. O objeto é representativo: um livro com capa revestida de pele de serpente. Para entender como a obra chegou até aqui é preciso fazer uma viagem no tempo – que acompanha, inclusive, a trajetória profissional de Canter. “Comprei essa edição há muitos anos, quando nem pensava em vir trabalhar no Butantan”, comenta. Quase 50 anos mais tarde, o professor, que já foi diretor do Museu Biológico, lembra que ainda cursava Biologia na USP, quando encontrou o exemplar num sebo do centro da cidade.

Canter chegou ao Instituto Butantan em dezembro de 1970. Na época, a instituição recebia uma quantidade imensa de cobras de todo o Estado de São Paulo e, às vezes, de outros estados. Cerca de 17 mil serpentes chegavam aqui todos os anos. Por ideia de Vital Brazil, o Butantan fornecia uma caixa e um laço para que a população coletasse os animais em suas propriedades e enviasse para cá. “Havia um acordo com a rede ferroviária para transporte das cobras. Bastava colocar o animal na caixa com os dados e levar numa estação de trem que gratuitamente chegava até o Instituto”, explica Canter. Em troca, a população recebia soros antiofídicos para aplicação caseira.

Segundo o professor, um caminhão retirava as cobras da estação e fazia o transporte até a recepção do Butantan. Em seguida, um funcionário da Herpetologia ia até lá para verificar o conteúdo das caixas. “O público podia assistir pelo vidro enquanto o funcionário contava a quantidade de serpentes. Outra pessoa ficava do lado fazendo o cadastro de quem tinha enviado o animal e redigindo, numa máquina de escrever, o documento de registro”, explana. “Depois, o Butantan mandava um cartão para cada propriedade com a identificação da cobra e agradecimentos.”

Apesar dos esforços da instituição em conscientizar a população, as caixas chegavam, em muitos casos, com mais cobras do que era recomendado. “Algumas cobras vinham mortas, porque as pessoas colocavam de forma errada, outras acabavam morrendo no processo”, conta Canter. Para que elas não morressem em vão, o Museu Biológico realizava o curtume das peles das cobras. Curtume é o nome dado ao processo de transformar pele animal em couro.

O professor Canter se lembra de cada passo da técnica. “No mesmo lugar onde preparávamos os animais para exposição era onde as peles eram ‘curtidas’. Tirávamos toda a pele da cobra, depois passávamos um produto bem tóxico na parte interna para não estragar e colocávamos para secar. Em seguida, raspávamos o material e dávamos brilho”. O Butantan vendia essas peles inteiras – e a procura era alta.

Cobras na Biblioteca

Durante o processo de curtume, no entanto, podia acontecer de o material rasgar ou furar. As peles danificadas eram enviadas, então, para o setor de Gráfica e Encadernação. “Aqui dentro, existia uma gráfica e todo o acervo interno era encadernado por nós mesmos. A gráfica funcionou por mais de 60 anos e os funcionários colavam as peles de cobra manualmente em algumas capas de livros”, conta a diretora da Biblioteca Joanita Lopes.

Tratava-se de um revestimento feito com retalhos das peles de diferentes espécies. Na linguagem de hoje, seria como um patchwork de peles de cobras – isto é, uma técnica de artesanato com a utilização de retalhos colados.

O processo era utilizado apenas em obras importantes. Joanita explica que toda a coleção da Revista Memórias do Instituto Butantan, por exemplo, recebeu a capa em pele de cobra. A publicação, que circulou de 1918 a 1993, tinha como missão registrar e divulgar as pesquisas desenvolvidas pela instituição. Ainda citada na literatura, a revista publicou obras de renomados pesquisadores, como Vital Brazil, Eduardo Vaz, José Lemos Monteiro, Jandyra Planet do Amaral, Wolfgang Buecherl, entre outros.

“A tese de Vital Brazil e os exemplares mais antigos do nosso acervo, que são do século XVII – um de 1620 e o outro de 1673 – também receberam a pele de cobra na capa. Esses livros ficam hoje num armário de coleções especiais [da Biblioteca]”, afirma a assistente de organização e pesquisa Joice de Medeiros.

Por terem esses detalhes “inusitados”, a equipe da Biblioteca evita manusear as obras. Os próprios funcionários só encostam nos livros com luva plástica descartável, até para impedir que o material descasque ou se solte. Caso alguém precise consultar os textos, são oferecidos outros exemplares ou o acervo on-line.

“Podemos garantir que só nós temos essa especificidade das peles de cobras nos livros. É algo que chama bastante atenção, nem os estudantes acreditam quando comentamos”, orgulha-se Joanita Lopes. Parte do acervo com esse revestimento pode ser visto – mas não tocado – de uma das vitrines de vidro da Biblioteca.

Vale lembrar que toda a coleção da Revista Memórias do Instituto Butantan foi digitalizada e encontra-se disponível virtualmente. Para consultar os textos completos, visite o endereço bibliotecadigital.butantan.gov.br/colecao/memorias-do-instituto-butantan

Contra a moda de matar animais

O professor Canter abre sua edição de “A Defesa contra o Ofidismo” e mostra uma anotação feita em 1917 pelo primeiro dono da obra. “Esse livro é simbólico, então quando comecei a trabalhar aqui, pedi para que a gráfica o encadernasse com pele de cobra”, comenta enquanto folheia o exemplar.

Ele lembra que a antiga gráfica do Butantan recebia também materiais recolhidos pela polícia ambiental. Na época, ele diz, existiam lojas de caça e pesca que comercializavam peles animais de forma ilegal. “As lojas faziam curtume de jacaré, cobra, lagarto, onça, capivara – tudo da maneira deles. Nós recebíamos, mas não vendíamos, então mandávamos para fazer encadernação”.

Com o surgimento das campanhas ambientais em oposição ao uso de animais na indústria de vestuário, o Butantan mandou fazer um carimbo com a frase “Esta Cobra Morreu Naturalmente”, utilizado diretamente nas peles. A ideia era eliminar qualquer dúvida a respeito da procedência dos produtos vendidos na lojinha na época.

Canter relaciona a medida com uma exposição que o Butantan recebeu mais tarde em que se posicionava contra o uso de couro animal na moda. Intitulada “Na Natureza Não Existem Vilões”, a mostra trazia bolsas, luvas, sapatos e outros produtos feitos com peles de animais que tinham sido mortos para a confecção. “A ideia era mostrar que as cobras têm seu lugar na natureza. A exposição mostrava que o vilão era o homem, não os animais”, conclui.

(Por Marcella Gozzo)