Conversas Literárias no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas

 

 Editor de Conteúdo ‭[2]‬

 
​​Exposição
Mais que humanos. Arte no Juquery
Conversas literárias no Museu de Saúde Pública
Emílio Ribas

Curadoria

Sérgio Augusto Vizzacaro-Amaral
Historiador, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP e doutor em Saúde Coletiva pela Unicamp.  Atualmente é pesquisador da Rede de Estudos do Trabalho, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e professor da pós-graduação do Centro Técnico Templo da Arte. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Metodologia da Pesquisa, atuando principalmente nos seguintes temas: produção de conhecimento; estética; literatura, filosofia e arte.​

Primeiro Encontro
10 de setembro de 2016
11h às 13h
“O Teatro e a Peste” 
In ARTAUD, Antonin. O Teatro e Seu Duplo.  São Paulo : Martins Fontes, 2006. 

Segundo Encontro
29 de outubro de 2016
11h às 13h
O Alienista - Machado de Assis

Terceiro Encontro
26 de novembro de 2016
11h às 13h 
Cartas a Théo - Vicent Van Gogh

Quarto Encontro
28 de janeiro de 2016
11h às 13h 
O cemitério do vivos - Lima Barreto

Quinto Encontro
25 de fevereiro
11h às 13h
Poesia Completa - Orides Fontela

inscrições
 

 Editor de Conteúdo ‭[1]‬

 
Literatura e Loucura

Quem sonda o verso escapa ao ser como certeza, reencontra os deuses ausentes, vive na intimidade dessa ausência, torna-se responsável dela, assume-lhe  o risco e sustenta-lhe o favor. Quem sonda o verso deve renunciar a todo e qualquer ídolo, tem que romper com tudo, não ter a verdade como horizonte nem o futuro por morada, porquanto não tem direito algum à esperança, deve, pelo contrário, desesperar. Quem sonda o verso morre, reencontra sua morte como abismo.
(Blanchot, “A experiência de Mallarmé”)

Fuga. Talvez esta seja a palavra mais interessante quando se quer tratar de algo tão problemático, quanto a relação entre a literatura e a loucura. Mas a fuga não se dá pelo simples sentido do “fugir” de algo, seja ele o que for. A fuga, ao contrário, se faz em movimento perpétuo, alimentado, neste caso, pelo traçar de um caminho insólito que nunca pode se deixar esgotar. Na fuga não há descanso.  Não há, também, a chegada a lugar nenhum; pois “chegar” seria parar. 

A literatura é uma linha de fuga assim como a loucura. Na verdade, tanto em uma quanto na outra, é a mesma linha que as atravessam. Mas, se na literatura a linha se conecta em vários espaços envoltos no jogo entre interioridade e exterioridade - como a criação -, na loucura, ela se desmantela pela errância jogada numa exterioridade plena. Diferença, essa, que estabelece a essencial fronteira que crava o limite daquilo a ser desdobrado na arte e daquilo a ser movido no delírio encarcerado pela questão psiquiátrica.

Por outro lado, ambas são linguagem, ou melhor, se desenrolam no plano da linguagem. E é nesse plano que as fronteiras se tornam difusas, ou que a linha de fuga vibra em movimentos mistos. Pois se há fala delirante na literatura, ao seu modo, há no delírio da loucura a fala articulada. Daí, desse espaço movediço, onde a fala se perde entre um espaço e outro, onde a loucura fala pela literatura e a literatura fala pela loucura, emerge o que desejamos tratar em nossas conversas.
Porém, não basta afirmarmos a existência da fronteira. É necessário mostra-la em sua especificidade. E tal especificidade encontra voz no Mallarmé de Blanchot, porque por eles a linguagem poética, ou a literatura, se diz por si mesma, estabelecendo certa autonomia em relação aos discursos do cotidiano.

Aqui, a fronteira difusa entre literatura e loucura encontra outra fronteira, que se estabelece entre o que “se diz no delírio da arte” e o que “se diz no domínio dos discursos funcionais” da vida dita comum. E esta nova delimitação é fundamental, pois escancara outras diferenças muito mais agressivas e perigosas. Isto é, se podemos vislumbrar mistos entre o delírio e o poema em termos mais efetivos, na fala articulada pela funcionalidade do dia a dia, essa “mistura” cede lugar aos processos de enquadramento, pelos quais o que pode ser poesia decai diante do que deve ser “comunicação” baseada em determinada exigência de coerência, de unidade e de finalidade. 

Na literatura, a coerência, a unidade e a finalidade se estilhaçam, trazendo à tona a questão de que a fala poética se diz dela mesma. Em outras palavras, e trazendo novamente Mallarmé via Blanchot, enquanto o discurso liga as palavras às suas designações, ou às coisas as quais elas devem “representar”, a linguagem poética arranca as palavras desse meio levando-as a se articularem independentemente e entre si: é o que dá ao poema, por exemplo, a possibilidade de se movimentar entre sons, ritmos e sentidos autônomos e dados à sua própria existência. Na literatura, portanto, e em termos gerais, a linguagem se estabelece na autonomia de si mesma. É a linguagem agindo sobre a linguagem, sem nenhum compromisso necessário diante das coisas.

Mas esse movimento da linguagem sobre a própria linguagem faz instalar no seio desse jogo, a evidência, talvez terrível, da presença de uma ausência. Ou melhor, quando a palavra se vira para outros horizontes, dando as costas à mera comunicação funcional, ela, ao mesmo tempo que ganha em “espessura” poética, perde-se na evidência de seu vazio, ao mostrar a pura ausência de sua condição de ser. Aqui, no poema, a palavra ganha a autonomia enquanto palavra poética, mas se perde ao se fazer por meio da ruptura com os objetos pelos quais ela exprimia sentido: a palavra descola, como diria Blanchot, da vida diurna, funcional, imersa no trabalho e assentada num sujeito, voltando-se para a dissolução das formas, próprias à noite tomada por uma escuridão absoluta. Temos, então, o deslocamento da fala, que sai de seu lugar de discurso claro, reluzente, comunicativo e recheado de finalidades funcionais, próprias do dia (com suas exigências mobilizadas pelas necessidades do trabalho e da eficiência), em direção ao desmantelamento das formas bem delimitadas, ou dos limites, se quisermos, próprias da escuridão silenciosa da noite. 

Enfim, se dissemos que a literatura e a loucura participam de uma mesma linha, que é a da fuga, agida pelo inesgotável movimento sem lugar de parada, estabelecendo assim fronteiras intimamente ligadas pelas misturas entre elas, também demarcamos a existência de outro espaço fronteiriço essencialmente diferente, que é o lugar da fala discursiva, assentada basicamente na lógica funcional e utilitária do cotidiano. Entre tais lugares, o que há de mais importante para nós, é a efetivação de uma diferença de natureza na linguagem por onde correm duas vias distintas de existência: de um lado, a linguagem literária, imersa em possibilidades delirantes, e a linguagem delirante, imersa em possibilidades poéticas; e, por outro lado, a linguagem discursiva, utilitária, diurna, exercendo seu “trabalho” diante das coisas do mundo. Assim, mais que demarcarmos a margem, já intimamente estabelecida, por onde correm a literatura e a loucura, precisamos nos atentar à outra margem, mais fundamental, que é a que estabelece sua diferença marcando-a a partir da necessidade de significação das coisas, dentre elas, da própria loucura e da própria literatura.

Eis nosso problema, então: no estabelecimento das relações entre literatura, loucura e discurso, o que podemos vislumbrar? Obviamente, podemos predizer que há, sim, um emaranhado de embates, pelos quais se pode tentar entender quais forças estão envolvidas por eles. Desse modo, ao trazermos nomes como VanGoh, Artaud, Lima Barreto, Machado de Assis e Orides Fontela em meio à lógica da fala “diurna”, o que desejamos é fazer aparecer de que maneira as fronteiras entre a literatura e a loucura se articulam ao longo de um processo dado justamente por relações de captura, de fuga, de rapina, de usos e de vontades de domínio, fazendo com que tais fronteiras se movimentem de acordo com tais lutas.
Por fim: e se a literatura adquire, como condição de existência, seu lugar de autonomia, evidenciado pela espessura dada pela palavra-poética, de que maneira podemos pensar a tentativa de captura desse espaço por algo completamente alheio a ele, como é o caso do discurso cotidiano?

Metodologia

Como pensar em um espaço que não prime pela dualidade autor-obra?
 
Seguindo o traçado da linha, que desarticula a fala das determinações entre biografia e obra, nossa principal preocupação, portanto, se concentra em encontrar uma “forma”, um processo de encontro em que se possa estabelecer não a mera “ocupação de lugares”, mas a possibilidade concreta de “movimentação no espaço”. Ou, ainda, os encontros merecem ser tratados como espaços de movimento, sem determinações pré-estabelecidas, pelas quais se entra com lugares já dados: o lugar do autor, o lugar do contexto desse autor, o lugar da obra, o lugar do “especialista” no autor-obra, o lugar do espectador, etc. 

A partir disso, pensamos na “conversa” como distanciamento da “apresentação”, do “debate” e da “discussão”. Isto porque, se na “apresentação” já está demarcado o lugar do especialista, se no “debate” já se pode contar com afrontamentos e se na “discussão” se encerra as possibilidades de tomadas de posição, na “conversa”, ao contrário, o que se promove é justamente a condição de produzir-se o espaço de encontro entre múltiplas linhas de experiência, sem as hierarquias fechadas em torno de algum tipo de identidade: a conversa exige o espaço circular como elemento de seu processo de efetuação.

Espaço, portanto, pelo qual a fala permite-se livre, sem endurecimentos em torno de posições cristalizadas; fala quase errante, pois se faz pelo movimento do próprio encontro promovido pela conversa. 

Porém, se podemos vislumbrar a errância das falas, nem por isso dela não se exige a conexão. Isto é, a liberdade da conversa precisa ser conectada para que seu sentido possa fluir de maneira real. É necessário a formalização de eixos.
No nosso caso, tais eixos, ou focos de produção, são os nomes: Artaud, Van Gogh, Lima Barreto, Machado de Assis e Orides Fontela. Mas nomes-acontecimentos e não simplesmente “nomes”. Mais uma vez, a tentativa é dissolver a biografia, é desprender os sentidos dos contextos e fazer aparecer as maneiras com que somos afetados quando entramos em contato com seus escritos. 

Não nos interessa “Artaud”, mas o acontecimento-Artaud, para darmos um exemplo. E falamos “acontecimento”, pois com isso nos permitimos percorrer o espaço pelo qual as palavras em torno desse nome nos afetam. Para falarmos de Artaud, precisamos nos deixar afetar pelas suas palavras, mais que entender os passos pelos quais as “biografias” traçaram por ele. Do mesmo modo, não queremos o Van Gogh das biografias, das determinações explicativas, mas suas palavras que se foram em torno de sua relação irmão-arte. 

Enfim, não desejamos debates, discussões, “aulas” sobre os nomes que nos propusemos trazer, mas encontros. Encontros movidos pela conversa, pela qual possamos nos deixar afetar sem tomadas de posições, sem endurecimentos prévios e sem, principalmente, estabelecermos “re-cristalizações” promovidas pela fala especializada. Propomos, portanto, um espaço livre pelo qual o movimento em torno das falas possa ser estabelecido ao longo do próprio processo.